Coluna Vitor Vogas
Deputado, prefeito, governo: a polêmica em torno de um novo hospital no ES
Antigo sonho está temporariamente adiado, devido a um impasse relacionado ao terreno no qual o novo Sílvio Avidos será erguido

Acima: deputado Paulo Folletto, prefeito Renzo Vasconcelos e ex-prefeito Guerino Balestrassi. Abaixo, imagem noturna do Hospital Sílvio Avidos
Referência no atendimento à população de toda a Região Noroeste do Espírito Santo, o Hospital Estadual Sílvio Avidos foi inaugurado, em 1949, pelo então presidente Eurico Gaspar Dutra. Com mais de 70 anos de vida, seu prédio, no centro de Colatina, respira por aparelhos. A construção de um novo Sílvio Avidos, em outra localidade de Colatina, é um antigo sonho partilhado não só pela comunidade médica, mas pela população da região. O sonho, porém, está temporariamente adiado, devido a um impasse relacionado ao terreno no qual o novo hospital será erguido (ou não).
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A nova administração da Prefeitura de Colatina, chefiada por Renzo Vasconcelos (PSD) desde o dia 1º de janeiro, não concorda com o local que havia sido escolhido pela gestão anterior, de Guerino Balestrassi (MDB), e pelo Governo do Estado. A área em questão é parte de um grande terreno comprado pela prefeitura na gestão passada, no bairro Cidade Jardim.
Pelo acordo verbal de Guerino com o governo Casagrande, a área deveria ser doada pelo município ao Governo do Estado, para que este possa dar início à construção do novo hospital, moderno e expandido. No entanto, a gestão de Renzo não fez e, ao que tudo indica, não pretende fazer a doação. Avalia que aquele não é o melhor local para se pôr de pé o novo Sílvio Avidos.
O imbróglio colocou o deputado federal Paulo Folletto (PSB), o mais experiente representante do interior capixaba em Brasília, em rota de colisão com o prefeito. Na última quarta-feira (2), da tribuna da Câmara dos Deputados, o parlamentar colatinense fez uma cobrança duríssima a Renzo, dirigindo-se a ele:
“Precisamos resolver o problema do Hospital Sílvio Avidos, prefeito Renzo. Está na hora de liberar o terreno que está em posse da prefeitura e que ia ser liberado no fim do ano, para que possamos dar andamento na questão. O novo Hospital Sílvio Avidos não vai atrapalhar o Hospital São José! Eu não vou parar de botar emenda!”, discursou Folletto, em referência ao hospital filantrópico que pertence à família do prefeito.
Em conversa com a coluna, Folletto fez questão de ressalvar que não fez uma “agressão” a Renzo, mas uma cobrança necessária, cumprindo seu dever como parlamentar, médico e cidadão de Colatina. E voltou a cobrar do prefeito uma solução:
“O novo Hospital Sílvio Avidos é um projeto sedimentado, fruto de uma programação médica e política, da ‘política do bem’. Ele não pode obstruir coisas que estavam programadas para que o cidadão do Noroeste tenha o melhor atendimento, principalmente na área da saúde. Na política, às vezes, nem tudo é pensado por você, mas você não pode atrasar algo que é para o bem coletivo só porque não saiu da sua cabeça. Ele poderá inaugurar o novo hospital junto com o governador do Estado”.
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Secretário estadual de Saúde desde janeiro, Tyago Hoffmann (PSB) reforça a necessidade de um novo hospital: “O prédio é muito antigo. A estrutura está muito desfasada para um hospital regional de tão alta complexidade. Aquela região precisa de um novo Sílvio Avidos. Ponto. A Secretaria de Saúde já tem o projeto básico pronto. Em teoria, se tivéssemos o terreno liberado amanhã, poderíamos fazer a licitação quase imediatamente e entregar o novo hospital em três ou quatro anos, nos moldes do que estamos fazendo com o Roberto Silvares [hospital de referência de São Mateus]”.
O secretário pede agilidade à prefeitura na destinação de outra área: “O Estado não quer nada que interfira na entrega de um equipamento tão importante. Se a atual gestão entende que não deve ser naquele terreno, não temos problema nenhum quanto a isso. Para nós, quem determina o local é a gestão municipal. Não fazemos questão de construir o hospital no terreno inicialmente projetado. Fazemos questão de construir o hospital. Ponto”.
Com cerca de 120 leitos, o Sílvio Avidos é o hospital de urgência e emergência do Noroeste do Estado. É referência em cirurgias de trauma, até em nível estadual. Também oferece atendimento 24 horas em ortopedia, neurocirurgia, cirurgia vascular, cirurgia geral, urologia, CTI, entre outras especialidades.
O projeto do novo hospital
Planejado pelo Governo do Estado, em parceria com a administração municipal passada, de Guerino Balestrassi (aliado do governador), o novo Sílvio Avidos deverá comportar cerca de 280 leitos, segundo Folletto, mais que duplicando sua atual capacidade. O número dado por Hoffmann é até maior. O secretário fala em 350 leitos.
Há o desejo da comunidade. Há a vontade política do governo… E também há os recursos para a execução do projeto, provenientes do Acordo de Mariana.
Como explicam o secretário estadual de Saúde, Tyago Hoffmann (PSB), e o ex-prefeito Guerino Balestrassi, hoje secretário estadual de Recuperação do Rio Doce, nos termos do acordo, repactuado no ano passado, o Governo do Espírito Santo receberá R$ 18 bilhões ao longo dos próximos 20 anos. Desse montante, R$ 7 bilhões ficarão em um “fundo perpétuo”, para o caso de uma nova calamidade (logo, não podem ser investidos).
Dos R$ 11 bilhões restantes, R$ 619 milhões precisam ser aplicados pelo Estado na saúde pública. Dessa fatia, R$ 270 milhões estão reservados para a execução da obra do novo Sílvio Avidos. O custo total será maior, mas o governo complementará com recursos próprios. Desse valor, R$ 90 milhões têm de ser aplicados ainda este ano. Do contrário, tais recursos precisarão ser realocados para outra rubrica. Daí também a urgência por parte do Governo do Estado.
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Então recapitulando: há o desejo da comunidade. Há a disposição do Governo do Estado. Há os recursos para fazer. E o terreno, há? Sim, também há. Ou, pelo menos, havia. Eis o nó górdio da questão.
Quando Guerino reassumiu a Prefeitura de Colatina, em 2021, ele e sua equipe fizeram o Plano Estratégico 2021-2040 para a cidade. O carro-chefe do plano, principal projeto da gestão passada de Guerino, é um complexo de equipamentos públicos a serem construídos, em um mesmo grande terreno, adquirido pela prefeitura, na região norte da cidade. Trata-se de uma área de 12 alqueires de terra, ou 600 mil metros quadrados, localizada no bairro Cidade Jardim e outrora pertencente aos herdeiros do senhor José Natal Lemos.
Com a ajuda do Governo do Estado, em 2023, a prefeitura adquiriu e desapropriou o terreno, apelidado de “área do Talim”, o qual agora, portanto, pertence à municipalidade. A aquisição custou R$ 9 milhões aos cofres públicos, divididos em partes iguais por prefeitura e governo. Cada ente entrou com R$ 4,5 milhões.
Nesse grande terreno, a gestão de Guerino planejou construir uma série de equipamentos públicos: um novo estádio municipal, uma nova escola, quartel da PMES, quartel dos Bombeiros, um estacionamento para 1 mil veículos, a nova sede do Serviço de Verificação de Óbito (SVO)… e o novo prédio do Sílvio Avidos.
“Fizemos o planejamento para Colatina de 2021 a 2040. Nesse plano, por meio de pesquisas, detectamos a necessidade de modernização de alguns equipamentos públicos, entre os quais o Sílvio Avidos. A possibilidade de tirar o hospital do centro foi muito falada. Já se fizeram muitos puxadinhos no prédio. Para você ter uma ideia, estamos tratando de um hospital regional, que recebe pacientes de muitos outros municípios, mas o prédio, no centro da cidade, não tem nem estacionamento”, afirma Guerino.
Conceitualmente, o projeto do novo Sílvio Avidos deixado pela gestão anterior atende a uma estratégia maior de desenvolvimento e planejamento urbano, com três objetivos principais: desafogar o centro da cidade, melhorar a mobilidade urbana e gerar dinamismo econômico para a região norte do município, criando uma nova fronteira de expansão da cidade. “Estamos falando de desenvolvimento coletivo e grandiosidade”, afirma o deputado Folletto, aliado de Guerino e defensor do projeto.
O complexo de equipamentos projetado para esse terreno está ligado a outro projeto legado pela administração passada: o da construção de uma nova ponte sobre o Rio Doce, justamente naquela região. O novo ramal, se construído, sairá na altura projetada para o novo hospital.
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“O terreno [em Cidade Jardim] fica na parte norte da cidade, perto do Contorno, na BR-259. É de fácil acesso para quem vem de fora e fica a sete minutos de carro do centro de Colatina. E essa área será ligada por uma nova ponte, já licitada, no centro da cidade, a chamada ‘Terceira Ponte’. Isso também foi objeto de questionamentos da nova gestão, mas acho que será executado. Indo de carro devagar, do centro para o hospital, com esse novo acesso, o trajeto será feito em três minutos”, explica Guerino, que reitera:
“Não é algo que tenha saído da minha cabeça. Foi muito trabalho nesses últimos quatro anos. Tenho convicção de aquele é o melhor local para a construção do novo Sílvio Avidos, porque toda a engenharia da prefeitura, do Estado, de quem planeja a cidade, indica isso”.
A gestão de Renzo Vasconcelos não pensa assim. Ou não compartilha a convicção de Guerino.
O projeto de lei parado
Nas eleições municipais de outubro, Guerino não conseguiu se reeleger. Numa das disputas mais acirradas do Espírito Santo, foi batido por Renzo. Como diz o ditado, prefeito que não renova o mandato serve café frio no fim do governo.
Para que o governo Casagrande possa erguer ali o novo Sílvio Avidos, a Prefeitura de Colatina precisa doar ao Estado, exclusivamente, o pedaço do terreno de 600 mil metros quadrados reservado para tal finalidade. Para isso, é preciso autorização legal por parte da Câmara Municipal. Nos últimos dias de seu governo, Guerino mandou para a Câmara o projeto de lei prevendo a autorização para a doação. Já sob a influência de Renzo, a Câmara não votou e tirou de pauta o projeto.
“Ele usou sua influência, como prefeito já eleito, para que o projeto não fosse aprovado, porque queria avaliar melhor. Ele não deixou doar e começou a segurar, dizendo que talvez não seja preciso construir logo um novo hospital. Na semana retrasada, o secretário Tyago Hoffmann esteve conversando com o Renzo, e o prefeito empurrou com a barriga. A verdade é essa. Ele não era muito favorável à construção do novo Sílvio Avidos”, acusa Folletto.
Evitando entrar na polêmica política com o prefeito, o secretário Tyago Hoffmann dá a versão da Secretaria de Saúde: “A gestão anterior enxergava aquela área como área de expansão estratégica do município, até porque ali também vai sair a nova ponte. Esse estudo estava muito consolidado. Mas o fato é que o projeto de lei não foi votado e foi retirado de pauta, portanto o terreno não chegou a ser doado. A nova administração entende que aquele terreno não é o mais apropriado para a construção do novo hospital”.
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Prefeito não se manifesta
A coluna procurou o prefeito, por meio de sua assessoria, para ele se pronunciar no debate. Questionamos por que a atual administração avalia que o terreno em Cidade Jardim não é o mais adequado para a execução do projeto. Também perguntamos quais terrenos alternativos, disponíveis na cidade, poderão abrigar o novo hospital, na avaliação da Prefeitura de Colatina. A assessoria informou que, neste momento, o prefeito prefere não se manifestar sobre o tema.
Na manhã de quinta-feira (3), dia seguinte ao pronunciamento de Folletto, Renzo publicou um story. Destacou, como “excelente notícia aos colatinenses”, “verba e recurso garantido para a construção do novo Hospital Sílvio Avidos, moderno e amplo”, agradeceu ao governador Renato Casagrande e informou que o secretário de Saúde estará de novo com ele em Colatina na próxima semana para tratar do assunto. “Vamos percorrer algumas áreas para achar o melhor ponto para atender a todo o Noroeste.”
Tyago Hoffmann: “Temos pressa”
“Nós não estamos em debate sobre qual será o terreno. Não estamos disputando com o município para que seja naquele terreno em Cidade Jardim. Ponto. O que queremos e precisamos é que o município providencie, o mais rápido possível, a doação de um terreno adequado para a construção de um hospital”, enfatiza Tyago Hoffmann.
“Minha dificuldade pessoal com o atual prefeito é zero. Não temos interesse nenhuma em fazer disputa política em relação a esse assunto. Estive lá, com o prefeito, há cerca de duas semanas. Ele me sinalizou que está tentando a doação da área da Conab [Companhia Nacional de Abastecimento]. Então, o governador Renato Casagrande entrou em contato com o Governo Federal. Como resposta, foi informado de que aquele terreno não pode ser doado. O prefeito quer que eu faça uma nova visita lá, para que ele aponte possíveis outras áreas para a Sesa. Vou visitá-lo na semana que vem para que possamos sair desse impasse”, confirma o secretário.
Hoffmann reitera a urgência e emergência do projeto:
“O que queremos, e tenho certeza que ele também, é a construção do hospital. Temos pressa, pois temos o dinheiro, temos o projeto e temos uma área. Não tem motivo para fazermos qualquer tipo de disputa. Se o prefeito entende que aquela área não é adequada, eu respeito isso, mas preciso de agilidade na indicação de outra área”.
Segundo Guerino, se o governo não puder investir neste ano os quase R$ 100 milhões previstos para o Sílvio Avidos, essa verba do Acordo de Mariana terá de ser redestinada a outra finalidade, “desde que tenha relevância com a repactuação”.
Quanto à atual estrutura do Sílvio Avidos, como se trata de um edifício tombado e patrimônio histórico de Colatina, não pode ser demolido. A ideia era que, ao deixar de abrigar o Sílvio Avidos, o prédio se transformasse num novo hospital materno-infantil ou numa UPA 24 horas.
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Desabafo e cobranças de Folletto
Em seu quarto mandato seguido na Câmara Federal, o deputado Paulo Folletto, histórico aliado de Casagrande, faz um desabafo final:
“Na nossa memória, aquele hospital é um brinco. Mesmo quem é monetarista gosta de dar atendimento lá. Como estudante de Medicina, comecei atendendo lá, de 1978 a 1980. Eu era plantonista da maternidade e do pronto-socorro. Fazia de tudo. Como deputado, sempre lutei muito pelo Sílvio Avidos. Nos governos Vitor Buaiz e José Ignácio, ele viveu um período ruim. Começou a ser reestruturado no primeiro governo Paulo Hartung. Já fez muito na história de Colatina. Mas nada que tem 75 anos sobrevive. Hoje, estruturalmente, o hospital está claudicante. Tem lugar em que o tijolo é tão antigo e úmido que o reboco não pega mais. Sendo bem franco, se a Vigilância Sanitária ou os Bombeiros fossem lá, o hospital tinha de ser fechado amanhã. Está na hora do outro. Todo o conjunto de pensamento da Região Noroeste planeja e sonha com isso”.
Em seu pronunciamento da tribuna da Câmara, na última quarta-feira (2), o deputado também fez uma insinuação sobre o que estaria levando o atual prefeito a “segurar” a obra do novo hospital público estadual em Colatina. Não falou com todas as letras, mas também não foi sutil: “Prefeito, o novo Hospital Sílvio Avidos não vai atrapalhar o Hospital São José! Eu não vou parar de botar emenda!”
A família de Renzo é proprietária do Hospital São José, filantrópico ligado à faculdade Unesc, pertencente à mesma família, e que funciona como hospital-escola.
“Ele não tem por que se preocupar com isso. Todos nós também lutamos para que o São José fosse equipado e seguiremos fazendo isso. Isso é ótimo para a região. Se não fosse o Estado, o São José não seria o que é hoje. Só neste ano, cerca de R$ 4 milhões vão chegar ao hospital, da minha emenda individual do ano passado [no Orçamento da União], para melhorar a radioterapia no São José”, exemplifica o parlamentar.
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