Coluna Vitor Vogas
Análise: o saldo político da confusão no Carnaval de Vitória
Numa típica situação em que todos têm uma versão, mas ninguém parece ter toda a razão, esse carro alegórico só teve destaques negativos. Enredo de confusão e briga física não combina com Carnaval, ainda mais quando envolve uma autoridade pública. Envolvidos tiraram nota zero em harmonia

Pazolini e Anechini se envolveram em uma confusão no Carnaval de Vitória. Foto: Reprodução
Quase só se fala nisso. A festa foi linda. As escolas brilharam, deixando beleza, glamour, suor e alegria na avenida. Nos camarotes e nas arquibancadas, o público foi ao delírio com o maior espetáculo do calendário festivo e cultural capixaba. Mas, passados alguns dias, confetes e serpentinas já varridas da passarela do samba, não é dos desfiles que se fala. Não se comenta a beleza da passista. Não se discute a fantasia mais bonita, o samba-enredo que mais contagiou, a escola que mais encantou na pista.
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Sobre o Carnaval de Vitória em 2025, o que concentra os comentários, desde domingo (23), é a grande confusão envolvendo o prefeito Lorenzo Pazolini (Republicanos). E, aparentemente, é por esse ocorrido (ou melhor, essa ocorrência) que será mais lembrada a presente edição do desfile no Sambão do Povo, tamanho o grau de viralização da briga do coronel Sérgio Luiz Anechini e sua esposa com o prefeito de Vitória em pleno Sambão, no meio de todo mundo, enquanto a banda da MUG passava.
Nesta quarta-feira (26), dia da aguardada apuração das notas dos jurados, conheceremos a campeã do Carnaval do Espírito Santo. Mas já sabemos quem caiu e quem perdeu: todos os envolvidos no episódio, incluindo o prefeito de Vitória.
Numa típica situação em que todos têm uma versão, mas ninguém parece ter toda a razão, esse carro alegórico só teve destaques negativos. Enredo de confusão e briga física não combina com Carnaval, ainda mais quando envolve uma autoridade pública.
Politicamente, o saldo para Pazolini não é bom. Basta ler a enxurrada de comentários nas redes sociais, majoritariamente desfavoráveis ao prefeito, muitos deles em tom zombeteiro: Pazolini teria “valorizado a falta”, “dando uma de Neymar”, ao ser atingido com uma camisa rasgada pela esposa do coronel, e estaria ali “a atrapalhar o desfile da MUG”.
Estudo da agência Candela analisou mais de 1,3 mil comentários de internautas nas redes sociais, em postagens feitas por três veículos a respeito do episódio. Quase a metade é negativa para Pazolini, contra apenas 12% de menções positivas e 38% consideradas neutras.
Do nosso ponto de vista, comecemos pelo mais elementar: a palavra “confusão” comparece, inclusive aqui, em quase todas as publicações da imprensa capixaba, e até nacional, sobre o tema. Em muitas delas, vem acompanhada do adjetivo “generalizada”. Qual autoridade política gosta de se ver associada a “confusão” e que benefício é possível tirar disso?
É bom ressaltar: o prefeito não iniciou a quizumba. Ele se envolveu nela, ao que tudo indica, de maneira espontânea, ao abordar pessoalmente e filmar, com o próprio celular, o coronel Anechini, subsecretário da Casa Militar no Governo do Estado – este, sim, o real deflagrador do tumulto naquele espaço, um corredor reservado à imprensa no qual sua passagem foi barrada.
O autor do quiproquó causou fundada revolta, por ter tentado dar uma “carteirada” e agredido uma segurança que atuava naquela área, com o agravante de que era uma mulher. Mostrou um descontrole incompatível com a patente que possui na Polícia Militar e, principalmente, com a posição importante que ocupa no segundo escalão do Governo do Estado. Assim, sua atitude também respingou no governador Renato Casagrande (PSB), que nada tem a ver com a história e nem sequer se encontrava no local.
Voltando a Pazolini, o prefeito foi vítima de uma agressão, mas não das circunstâncias. Não pode ser acusado de ter começado nada. Mas também não ajudou a encerrar. Tampouco pode ser considerado um personagem acidental no episódio, “no lugar errado na hora errada”.
Mesmo não tendo acendido o estopim da confusão e tendo sido ele mesmo vítima de uma agressão, Pazolini acabou se tornando coprotagonista de um “barracão” maior que o de qualquer escola, envolvendo um político capixaba, em plena apoteose do Carnaval de Vitória. E não foi um político qualquer, mas ninguém menos que o prefeito de Vitória, o grande anfitrião do evento, ou, como canta o sambista, “o dono dessa festa” – não obstante a passagem simbólica, horas antes, da chave da cidade para o Rei Momo.
Por parte do prefeito de Vitória, a ala do equilíbrio vinha evoluindo bem, mas acabou deixando buracos na pista.
Após episódios protagonizados em 2022 que não valorizaram sua imagem pública e que lhe deram certa pecha de “brigão” – os atritos públicos com o governador Casagrande e com a então vice-prefeita, Capitã Estéfane –, a bateria de polêmicas do prefeito havia recuado, nos últimos dois anos. Tanto que, na eleição municipal do ano passado, tiveram pouquíssimo peso. Mas, após o recuo, a bateria volta agora a repercutir com força.
No último dia 16, publicamos aqui um perfil com algumas das principais virtudes atribuídas a Pazolini por aliados dele. Uma das mais destacadas foi sua frieza e calculismo – no sentido da racionalidade –, ao lado do equilíbrio e de uma calma supostamente inabalável.
Um episódio como esse contradiz tais características e, literalmente, “briga” com a imagem atribuída ao prefeito por aliados. Em nada o ajuda a consolidar essa persona pública de equilíbrio e temperança.
Em dado momento do furdunço (foto acima), ainda que por reflexo e ainda que para se defender, Pazolini chegou a erguer os punhos e se colocar em postura de combate, preparado, se necessário fosse, para uma luta física com Sérgio Luiz Anechini, a qual não chegou a se consumar. Antes que isso pudesse ocorrer, a esposa do coronel investiu contra o prefeito, atingindo-o com uma camisa e levando-o a cair no chão. Caiu na folia.
De todo modo, alguém com a guarda erguida para eventual trocação de socos, em uma “confusão generalizada”, não é como se espera ver a maior autoridade da capital do Espírito Santo.
Ainda estamos a 20 meses da próxima eleição estadual. Tempo de sobra para corrigir a rota e cicatrizar os arranhões na imagem (e os porventura provocados pela queda).
Mas prefeito e sua equipe precisam manter-se atentos para evitar a repetição de episódios do gênero, os quais podem desgastar sua imagem em uma arena decisiva onde ele vem crescendo: a das redes sociais.
Não pega bem e não fica nada bem a quem quer que almeje chegar ao Palácio Anchieta.
Adendo: Pazolini sofreu mesmo uma agressão?
Todas as imagens que circulam, captadas por vários ângulos, confirmam que a mulher do coronel Sérgio Luiz Anechini tentou atingir o prefeito no rosto com a camisa rasgada do marido.
Se o golpe foi forte ou fraco, se pegou-lhe em cheio ou de raspão, se a “arma” usada por ela foi só um pedaço de pano, parece-nos pouco relevante: há agressões piores que outras, mas uma agressão é uma agressão. Mesmo que com um pedaço de pano, não se pode passar pano para isso. Ponto. Por esse ângulo, Pazolini é vítima na história.
Além disso, o ato do subsecretário da Casa Militar, de retirar das mãos do prefeito o celular pessoal com que ele filmava a cena, também pode ser considerado uma hostilidade física, isto é, também não deixa de ser uma agressão contra Pazolini.
