Coluna Vitor Vogas
Análise: como a prisão de Assumção impacta as eleições municipais
Quem mais se beneficia? O que o PL fará?

Da esquerda para a direita: Gilvan da Federal, Alexandre Ramalho, Lorenzo Pazolini e Capitão Assumção
Tudo aqui são conjecturas. Conjecturas imediatas, quiçá imediatistas, mas necessárias a partir da prisão do deputado Capitão Assumção (PL), a qual pode desencadear uma série de desdobramentos nas eleições municipais deste ano no Espírito Santo. Esse fato novo e externo gerado pela Justiça tem o poder de impactar profundamente o cenário pré-eleitoral de Vitória tal como estava posto até o momento e também o de uma grande cidade vizinha. É como se a Justiça tivesse dado um tapa debaixo do tabuleiro eleitoral, desferido pela mão de Alexandre de Moraes, causando um sacolejo geral e o possível reordenamento de algumas peças importantes.
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Para começar, é preciso responder à primeira grande dúvida suscitada pela prisão do pré-candidato do PL à Prefeitura de Vitória, uma vez que a prisão decretada por Moraes é preventiva, por tempo indeterminado:
Se não tiver condenação em segundo grau, um cidadão pode ser candidato mesmo que esteja preso? No caso concreto, se ainda estiver detido durante o período oficial de campanha, a partir de 15 de agosto, Assumção poderá ter a candidatura registrada?
A resposta é sim. Ainda que esteja encarcerado, Assumção estará tecnicamente habilitado a se candidatar, já que não tem condenação em 2º grau (sua prisão se deu na fase do inquérito). É diferente, por exemplo, do caso concreto de Lula (PT), que não pôde concorrer à Presidência em 2018 porque tinha condenação em 2º grau (posteriormente anulada pelo STF) e, portanto, estava então inelegível. A resposta é corroborada pelos advogados Marcelo Nunes, Ludgero Liberato e Hélio Maldonado Filho, especialistas em Direito Eleitoral.
A dificuldade, porém, está no fato de que Assumção até poderá ser candidato, mas não poderá fazer campanha, já que estará, por assim dizer, com seu direito de ir e vir bem limitado. Se assim quiser, mesmo com Assumção ainda preso, o PL até poderá fazer uma campanha sem ele e por ele, tratando-o como herói da causa, injustiçado, “vítima de perseguição de Moraes” etc. Poderá, assim, garantir os votos ideológicos daqueles eleitores mais fidelizados de Bolsonaro. Mas as chances de êxito nas urnas ficam seriamente comprometidas.
Isso se Assumção não puder fazer campanha e o PL não encontrar ou não quiser lançar um substituto para ele. Mas e se o PL quiser substituí-lo?
Aí, vejamos, a primeira alternativa que nos ocorre é lançar, no lugar do deputado estadual, a candidatura de Gilvan da Federal (mesma corporação que, por ironia, prendeu Assumção nessa quarta-feira).
O que se comenta é que a meta de Gilvan é se candidatar ao Senado em 2026, com as bênçãos do senador Magno Malta, líder do partido de Bolsonaro no Espírito Santo. É isso que estaria reservado a ele pelo PL e pelo próprio Magno. Eles estão seguros de que, das duas vagas em disputa no Espírito Santo em dois anos, pelo menos uma ficará com a direita. Se elegerem Gilvan, este passará a fazer uma dobradinha no Senado com Magno, cujo mandato vai até janeiro de 2031.
Por isso mesmo, não estava nos planos de Gilvan disputar a Prefeitura de Vitória neste ano, apesar de ter iniciado a sua carreira política com estrondo na Câmara Municipal. Tanto é que foi ele mesmo, Gilvan, quem se incumbiu de anunciar Assumção como o pré-candidato do PL ao cargo, em julho do ano passado.
Mas, se o PL se vir sem opção, não vislumbro hoje outra – nos quadros atuais do partido – senão Gilvan da Federal. Estilo por estilo, nicho por nicho, ele pode ser tão competitivo quanto Assumção, se não mais. Cumpre lembrar que, para ser candidato a prefeito, o deputado não precisaria renunciar ao mandato na Câmara Federal.
Isso considerando “os quadros atuais do PL”.
Mas há uma outra possibilidade começando a ressurgir no horizonte.
Como discorremos aqui algumas vezes, o ex-secretário estadual de Segurança Pública Alexandre Ramalho já havia praticamente descartado ser candidato a prefeito de Vitória. O que faz mesmo brilharem os seus olhos é se candidatar em Vila Velha. Para isso saiu do Podemos e, pelo menos até o momento, tem uma negociação bem avançada que o conduz rumo ao Republicanos. Mas também tem conversas abertas com o PL.
A princípio, o partido de Magno Malta tem (ou tinha) maior interesse em filiar o coronel para lançá-lo à Prefeitura de Vila Velha mesmo, até porque, por conta de outra prisão, viu-se subitamente desprovido de um pré-candidato na cidade. Mas agora o plano pode ser adaptado. Se vier a ser confirmada a eliminação de Assumção do jogo eleitoral em Vitória, Ramalho poderá passar a ser tratado pelo PL como a solução ideal para o problema do partido não mais em Vila Velha, mas na Capital.
Ainda na noite dessa quarta, logo após as primeiras notícias sobre a prisão de Assumção, o coronel da reserva da PMES passou a ser sondado por partidários dessa tese, entusiasmados com a “oportunidade aberta”. Para registrar outra profunda ironia, nos quadros da PMES, Ramalho é superior hierárquico de Assumção e, durante a traumática greve dos policiais em fevereiro de 2017, foi seu contraponto simbólico na tropa.
Vou me furtar a registrar, neste momento, o tamanho da ruptura política que semelhante movimento de Ramalho, se concretizado, representaria em relação ao governo Casagrande (PSB). Até janeiro, o coronel pertencia e era leal ao grupo político liderado pelo governador. Imagine se entrar no bolsonarista PL para substituir ninguém menos que o Capitão Assumção, maior opositor do governo, na cabeça da chapa em Vitória. Mas repito: isso está mesmo sendo aventado pelas partes envolvidas.
Já do ponto de vista ideológico e da “afinidade” com o PL, não seria uma surpresa tão grande. Agora livre das amarras institucionais inerentes ao cargo que ocupava como secretário de Estado de um governo de centro-esquerda, Ramalho, digamos, “saiu do armário ideológico”.
No último domingo (26), em apoio à manifestação encabeçada por Jair Bolsonaro na Avenida Paulista na qual o ex-presidente praticamente confessou a trama golpista urdida por ele e aliados, o ex-secretário vestiu de vez a pele do bolsonarista raiz, não só apoiador como admirador (agora confesso) do ex-presidente.
Em um post no Instagram, Ramalho externou textualmente seu respeito e “admiração” por Bolsonaro. Mais que prestar-lhe reverência, literalmente bateu-lhe continência na foto publicada. E posicionou-se ao seu lado, como escreveu, a favor da “liberdade” e da “verdadeira democracia” – em linha com as concepções muito peculiares de “liberdade” e de “democracia” segundo a cartilha do bolsonarismo.
Enfim, em um único post, deu um tremendo cavalo de pau na viatura. Para quem até então se dizia um representante da “direita moderada”, foi uma guinada e tanto – não nas suas convicções interiores, mas na imagem política projetada para fora.
Pazolini, o maior beneficiado
De qualquer forma, enquanto o PL precisa se virar no 30 com mais essa, não cabe dúvida quanto a quem é o maior beneficiário eleitoral da eventual saída de cena (e em cana) de Assumção: o prefeito Lorenzo Pazolini (Republicanos). Em primeira análise, é ele de longe quem mais ganha com uma eliminação precoce de Assumção do jogo (se este não for substituído por Gilvan ou Ramalho).
Pazolini herdará esses votos sem nem sequer precisar se declarar “bolsonarista” ou desempenhar esse papel – assim como já não precisou fazê-lo para se eleger em 2020.
Como analisamos aqui, o hemisfério esquerdo em Vitória está muito embolado no momento, superpovoado especialmente por aliados de Casagrande, enquanto, no campo direito, só existem até então as pré-candidaturas de Pazolini (com os dois pés na direita conservadora) e de Assumção (na extrema direita, portanto à direita do prefeito).
Se a pré-candidatura de Assumção sucumbir, a extrema direita – ou, se preferirem, a direita bolsonarista mais fanática, visceralmente identificada com o ex-presidente Bolsonaro e suas convicções – ficará órfã de um representante na disputa eleitoral em Vitória, a menos que o PL de Magno o substitua por outro candidato com perfil similar ao de Assumção.
Se o deputado não puder fazer campanha e o PL não lançar um substituto à altura e a tempo, Pazolini dirá muito obrigado e, a priori, tende a herdar quase que espontaneamente boa parte dos votos que iriam para Assumção.
Se o prefeito atual disputar sem nem um único concorrente em todo o espectro da direita, vai nadar de braçada entre os eleitores desse campo. Por eliminação, ainda que o prefeito não seja o seu candidato dos sonhos, grande parte dos bolsonaristas convictos há de preferir votar nele a votar em qualquer candidato do centro até a extrema esquerda (Gandini, Tyago Hoffmann, Luiz Paulo, Majeski, Coser ou Camila Valadão).
Por ironia das ironias, essa prisão de Assumção ocorre justamente no momento em que o deputado vinha intensificando as investidas contra Pazolini, chamando-o para a briga com frequência em discursos da tribuna da Assembleia e argumentando que o prefeito não seria um “verdadeiro conservador”.
Num deles, no último dia 21, o deputado do PL chegou a chamar o prefeito de “moleque” em um pronunciamento bem ao seu estilo, por conta de um post, atribuído por ele à “militância paga de Pazolini” que o conclamava a ficar na Assembleia e desistir da candidatura a prefeito (ironia de novo) para não dividir “a direita de Vitória”.
Em outro discurso, chegou a conclamar as pessoas a checarem o Instagram de Pazolini para constatar como ele não faz nenhum post em alusão a Bolsonaro, muito menos em apoio ao ato na Paulista no domingo (Ramalho fez, é mesmo um festival de ironias…).
Assumção vinha chamando Pazolini para a briga, mas o prefeito, por óbvio, não mordeu a isca e o deixou sem resposta, até para não cair na armadilha de antecipar sua própria entrada na disputa e no debate eleitoral.
Que fase do PL no ES!!!
Primeiro foi o veterinário Thiago Oliveira do Nascimento, tratado até então no PL como aposta do partido à Prefeitura de Vila Velha, que foi eliminado prematuramente por ter sido preso sob suspeita de extorquir um empresário estrangeiro, na Operação Criptovet, do MPES, no dia 23 de janeiro.
Depois, no dia 14 de fevereiro, foi o vereador Juninho Corrêa, até então pré-candidato do PL em Cachoeiro de Itapemirim. Considerado muito competitivo, Juninho anunciou sua desistência para retomar o projeto de se tornar padre católico, não sem antes expor divergências com Magno Malta e com o deputado estadual Callegari (também do PL). Agora, a prisão de Assumção…
Isso tudo em pouco mais de um mês.
A ficha cresce
Não é a primeira vez de Assumção no xadrez. Ele foi preso em fevereiro de 2017 por ter sido um dos participantes e agitadores da greve (ilegal) da PMES. Passou alguns meses na prisão e foi condenado em 1º grau.
Se for solto antes
Agora, se Assumção for solto por Moraes antes de agosto, a tempo de se candidatar e fazer campanha de corpo presente, ele voltará ainda mais forte, com discurso de herói injustiçado da direita bolsonarista.
