Coluna Vitor Vogas
A definição ideológica de Majeski e como isso afeta a eleição em Vix
Analisamos como a entrada do ex-deputado no jogo eleitoral embola ainda mais o jogo no lado esquerdo do campo, já povoado por aliados de Casagrande

Sergio Majeski no EStúdio 360 (09/02/2023). Foto: Isabela Wilvock
A entrada de Sergio Majeski como pré-candidato a prefeito de Vitória pelo Partido Democrático Trabalhista (PDT) embola ainda mais o jogo eleitoral no campo esquerdo – ou do lado esquerdo da linha que divide o gramado em dois. Nesse lado do campo, já tínhamos as pré-candidaturas declaradas dos deputados estaduais Camila Valadão (PSol), João Coser (PT) e Tyago Hoffmann (PSB), além da muito provável pré-candidatura do ex-prefeito Luiz Paulo Vellozo Lucas (PSDB). Agora, temos também a de Majeski.
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“Eu me considero hoje uma pessoa entre o centro e a centro-esquerda”, declarou o ex-deputado, em conversa com esta coluna, instado a definir a si mesmo do ponto de vista ideológico. Na centro-esquerda também se localiza o PDT – alinhamento que influiu na opção de Majeski pela sigla para viabilizar seus planos de candidatura a prefeito neste momento de sua história política.
Já do lado direito da linha do meio de campo, o jogo no momento segue menos embolado. Temos a pré-candidatura à reeleição, ainda não colocada na rua, do prefeito Lorenzo Pazolini (Republicanos), e a pré-candidatura anunciada do deputado estadual bolsonarista Capitão Assumção (PL). Nesse lado ainda podemos situar a pré-candidatura do deputado estadual Fabrício Gandini (PSD), se bem que mais próximo ao centro do campo – ele mesmo se declara de centro-direita – e não obstante Gandini tenha muito pouco em comum com os dois primeiros, sendo adversário de Pazolini.
Deve-se acrescentar que ainda pulsa a possibilidade de o ex-secretário estadual de Segurança Pública Alexandre Ramalho ser candidato a prefeito de Vitória pelo Podemos, o que embaralharia mais esse lado direito do campo. Embora pessoalmente prefira ser candidato a prefeito de Vila Velha por outra sigla, o coronel tem sido incentivado a concorrer na Capital pelo governador e seu grupo, justamente como um trunfo para tirar votos de Pazolini e Assumção, principais adversários do Palácio Anchieta nessa disputa na Capital.
Hoje, os maiores aliados do governo Casagrande nesse jogo estão do lado esquerdo do campo – destacadamente, João Coser, Luiz Paulo e Tyago Hoffmann. O petista representa a esquerda, enquanto Luiz Paulo e Tyago jogam no meio de campo, mais perto do centro. Atuando bem aberta, na ponta esquerda, Camila tem mais “liberdade tática” em seus movimentos, mas também pode ser considerada uma aliada quando os interesses do PSol convergem com os do governo Casagrande – e derrotar Pazolini em Vitória é um deles.
Por isso, eu diria que a entrada de Majeski nesse jogo (ou pré-jogo) pelo PDT embola não apenas o lado esquerdo do campo, mas, de modo mais específico, o lado de quem está do lado do governador. Afinal, Majeski pode até ter perfil bem mais independente em relação ao Palácio Anchieta, mas seu novo partido faz parte do governo Casagrande. Sua entrada não significa a priori “mais um aliado de Casagrande na disputa”, mas na certa significa “mais um pré-candidato na disputa por um partido aliado do governador”. E insisto: todos a jogar na mesma metade do gramado ideológico.
Considero essa observação muito importante porque nos leva ao seguinte raciocínio:
Se o objetivo estratégico do governo Casagrande é impedir a reeleição de Pazolini e, mais ainda, a chegada do bolsonarismo ao governo da Capital, talvez não lhe seja interessante o lançamento de tantos candidatos aliados, ou por partidos aliados, posicionados do meio do campo para a esquerda nesse jogo. Isso por uma razão simples: a tendência à divisão dos votos do “mesmo eleitorado”.
Com tanta gente perfilada ali no lado esquerdo do campo, não será de surpreender que o eleitorado do centro para a esquerda pulverize seus votos entre esses cinco candidatos, de tal modo que nenhum deles cresça o bastante – ao menos não o suficiente para alcançar o 2º turno –, enquanto a massa de votos da direita será dividida em fatias bem maiores, somente entre Assumção e Pazolini. Isso se torna ainda mais plausível caso Ramalho não concorra em Vitória.
Resumindo: para o Palácio Anchieta, o risco de “convir” com um grande número de candidatos jogando da extrema-esquerda (Camila) à centro-direita (Gandini, incluído neste raciocínio pelo bom relacionamento com o Palácio) é que isso pode favorecer a chegada ao 2º turno dos dois candidatos que jogam do outro lado – na direita e contra Casagrande. Justamente os dois adversários que o Palácio quer ver derrotados, Pazolini e Assumção, podem vir a ser beneficiados com essa embolação no “time Casagrande”.
Por isso mesmo, não será nenhuma surpresa se o Palácio Anchieta – daquele jeito de sempre, “discretão” – puxar para a lateral do campo, ou para o banco de reservas, um ou dois desses hoje postulantes. E tampouco surpreenderá se a candidatura sacrificada for, mais uma vez, a de Majeski, agora pelo PDT.
Hoje, não acredito que a candidatura do ex-deputado esteja tão segura, mas bastante vulnerável aos ditames e às articulações de dirigentes estaduais que jogam um jogo à parte, por cima de nossas cabeças.
E se por acaso pesquisas de consumo interno mostrarem que Majeski não tira um só voto de Assumção nem de Pazolini, mas fraciona ainda mais os votos do time de aliados do Palácio?
Creio que é uma pré-candidatura que já nasce seriamente a perigo.
Afunilamento
De todo modo, quando esse processo de definições se afunilar, lá para meados de julho, será mesmo muito difícil que todas essas pré-candidaturas permaneçam de pé, seja por articulações estaduais, seja pela conjuntura nacional que envolve o Espírito Santo em arranjos relacionados a outros estados.
Por exemplo, sabendo que a eleição de João Coser será prioridade para o PT nacional no Sudeste e que o partido do presidente Lula abriu mão de ter candidato a prefeito de São Paulo para apoiar Guilherme Boulos, soa pouco provável que a pré-candidatura de Camila Valadão resista até o registro.
É bem possível que a direção nacional da federação Brasil da Esperança (PT/PV/PCdoB) cobre a contrapartida da federação do PSol com a Rede em Vitória e em outras cidades estratégicas. O apoio do PSol e da Rede a Coser em Vitória poderá ser parte da “conta política” pelo apoio da Fe Brasil a Boulos na maior cidade do país.
No caso de Majeski, o PSB de Casagrande tem o compromisso de apoiar a reeleição na Serra do prefeito Sérgio Vidigal, que vem a ser o maior líder do PDT no Espírito Santo. Não será nenhum espanto se o PSB (leia-se o Palácio Anchieta) requerer ao PDT a retirada da candidatura de Majeski para apoiar, por exemplo, o candidato do partido, Tyago Hoffmann… se este for de fato candidato. Ou, simplesmente, para não embolar ainda mais o jogo dos aliados.
Ponderações de Majeski
Ao responder à pergunta da coluna, acompanhando a “autodeclaração ideológica”, o ex-deputado Sergio Majeski fez uma série de ponderações pertinentes.
A primeira delas diz respeito a como se tornaram rasas as discussões de fundo ideológico no Brasil.
“No Brasil se radicalizou tanto que, se você disser que é de esquerda, é porque você é lulista; se você falar que você é de direita, é porque você é bolsonarista. Quer dizer, é uma visão rasa sobre o que é esquerda, o que é direita no Brasil.”
Majeski fez questão de destacar que, em seus oito anos na Assembleia Legislativa, de 2015 a 2022, não perdeu tempo com esse tipo de debate estéril e superficial:
“Quem acompanhou os meus dois mandatos percebeu que eu nunca gastei tempo com essas discussões rasas sobre ideologia que existem hoje no Brasil. O meu tempo foi usado em prol de questões que interessavam à sociedade: discutir a educação, discutir o bom uso do dinheiro público, as questões ambientais, sem me deixar levar por essas questões pequenas, de uma discussão ideológica que não leva ninguém a lugar algum.”
O ex-deputado reconhece que, com um Brasil ainda fortemente polarizado entre os apoiadores do presidente Lula e os do seu antecessor no cargo, essas “questões pequenas” voltarão a influenciar o debate eleitoral este ano. Mas ele lembra que quem for eleito não poderá governar amarrado a questões ideológicas (como se fosse um parlamentar), pela própria natureza e pelas próprias responsabilidades de um chefe do Poder Executivo Municipal:
“Acho que, nessa próxima eleição, essas questões vão vir à tona novamente, porque as pessoas acabam confundindo tudo. Há uma narrativa de que, se você não for lulopetista ou bolsonarista, não há espaço, como se essa fosse a única realidade do país. Mas, no caso do Executivo, se você pensar em termos administrativos, essas questões pesam muito menos do que se você estiver no Parlamento, lá no Congresso Nacional. As discussões que hoje tomam espaço em projetos de lei, relacionadas a costumes etc., ganham corpo lá. Não é papel de um prefeito debater esse tipo de coisa, muito pelo contrário. O papel do prefeito é administrar de tal forma a tentar resolver os problemas e melhorar a vida da população. E ter a plena consciência de que você tem que ter uma relação institucional com o Poder Executivo Estadual e o Federal, independentemente de posição ideológica.”
