Coluna Inovação
A IA, a imprensa e as redes sociais
O papel da grande imprensa ganha destaque em um cenário marcado por fake news, polarização e manipulação digital

Em meio à polarização e ao avanço das redes sociais, especialistas reforçam a importância da grande imprensa como fonte de informação confiável e necessária para a democracia. Foto: Reprodução
A frase é famosa. Thomas Jefferson, um dos pais da pátria americana, escreveu a um amigo em 1787: “Se tivesse de decidir se deveríamos ter um governo sem jornais ou jornais sem governo, não hesitaria em preferir a última opção”.
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Nos embates das redes sociais, alguns alegam que a grande imprensa teria perdido a relevância por não ser mais fonte de informações confiáveis. Campanhas para cancelar assinaturas de jornais e revistas se espalharam por grupos ideológicos, insatisfeitos com a cobertura feita de temas políticos e principalmente com os colunistas de opinião. Alguns costumam repetir que determinados assuntos de interesse do governo que apoiam não são publicados na grande imprensa ou questionam porque ela não publicava nada contra o adversário. Fico pensando como as pessoas se informaram sobre os escândalos que atingiram um e outro grupo. Interessante observar que a direita acha que a grande imprensa é de esquerda e a esquerda acha que a grande imprensa é de direita.
É uma ilusão achar que as pessoas têm mais informações pelas redes sociais que pela imprensa. As redes repercutem as notícias dadas em primeira mão pela grande imprensa com seus repórteres e colunistas de opinião ou pelos blogs de jornalistas que investem na captação de notícias originais mantendo contato permanente com as fontes primárias, os políticos em geral. Nas redes, colunistas de botequim, recém alfabetizados em política, apenas tentam reinterpretar as notícias veiculadas à luz de um embasamento precário, pouca história, e um acesso limitado às fontes primárias.
A indignação, o medo, a raiva, o preconceito, o insulto, ameaças, falsas acusações, teorias conspiratórias, a polêmica racista ou de gênero proporcionam muito mais atenção e engajamento que os debates enfadonhos da velha política. Liberar as emoções mais secretas e violentas do público dá mais resultado.
Os veículos de imprensa contratam jornalistas e investem na captação de notícias, e não só de política, mas também de economia, negócios, cultura, entretenimento e esportes. Os colunistas de opinião são isso mesmo, de opinião, e por isso analisam os fatos de acordo com sua interpretação, e provavelmente com algum viés, e os colocam em um contexto amplo com base na sua experiência de anos. Gente que nunca leu jornal na vida, ou pelo menos que nunca acompanhou política, acha isso estranho, desconhecendo que funciona assim em todo o mundo democrático. Alguns chegam a afirmar, inocentemente, que os jornais deveriam apenas reportar os fatos e deixar a opinião para os leitores, como se todos tivessem a capacidade de enxergar a história e o contexto.
Quem quer formar a sua própria opinião pode ler ou ouvir vários analistas, de fontes diversas, e tirar sua conclusão, reduzindo eventuais vieses de cobertura, que ocorrem mesmo. É um exercício interessante participar de grupos com opinião oposta à sua. Exige aprofundar o conhecimento para conseguir contestar.
A grande imprensa realmente quase acabou com a impressão de jornais e revistas, bem como caiu a audiência na TV, não porque perdeu credibilidade, mas porque foi atropelada pela velocidade da internet, que torna as notícias velhas rapidamente, pelas novas opções para entretenimento e pela mudança do mercado publicitário acompanhando a maior presença das pessoas nas redes.
Quando vejo alguma notícia nas redes sociais, corro para os sites da grande imprensa para verificar se saiu ali. Caso contrário há grande chance de ser fakenews, essa praga difícil de ver na grande imprensa – pode até ocorrer -, assim como as doentias teorias da conspiração, que nunca vi na grande imprensa. Além disso, os algoritmos das redes sociais nos transformam em seus produtos, dirigindo nossas vontades subliminarmente, sem oportunidade de ouvir outras fontes como a imprensa permite. Tudo vira tentativa de engajamento alimentando as bolhas onde só se ouve informações que combine com opinião já formada.
No excelente livro “Os engenheiros do caos”, o autor Giuliano Da Empoli explica: “Os algoritmos desenvolvidos pelos engenheiros do caos dão a cada indivíduo a impressão de estar no coração de um levante histórico, e de, enfim, ser ator de uma história que ele achava que estaria condenado a suportar passivamente como figurante”. Infelizmente, algumas figuras aprenderam como fazer para viralizar seu discurso e manipular os sentimentos desses figurantes.
Nessa época, onde a IA permite confundir totalmente o que é verdadeiro e o que é falso, onde as redes sociais ficam altamente perigosas e as big techs tentam não se responsabilizar pelo que é publicado, o papel da grande imprensa fica imprescindível.
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