Diversão
Passeio noturno para ver mar fluorescente atrai capixabas
Passeios noturnos revelam o fenômeno natural da bioluminescência em Vitória, um espetáculo raro que atrai curiosos e turistas
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O brilho azul da bioluminescência encanta turistas na Ilha do Frade, um espetáculo raro e fascinante. Foto: Reprodução
O fenômeno da bioluminescência voltou a ser registrado em Vitória, especialmente nas águas da Ilha do Frade. Esse evento natural ocorre quando microalgas unicelulares, conhecidas como dinoflagelados, emitem luz ao serem agitadas mecanicamente. A experiência tem atraído centenas de pessoas para passeios noturnos, organizados pela empresa Almar 027, que monitora a intensidade do fenômeno para oferecer as melhores oportunidades de observação.
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Segundo Arthur Aragão, empreendedor responsável pelos passeios, o brilho azul característico é mais frequente durante períodos em que as águas estão mais quentes, como no verão. No entanto, ele destaca que a bioluminescência depende de diversos fatores ambientais, incluindo a concentração de nutrientes na água e a ausência de chuvas. Isso a torna imprevisível e não vinculada a uma época específica do ano.
Na última semana, o fenômeno foi registrado com maior intensidade, atraindo cerca de 400 participantes para os passeios. Em comparação, no ano passado, aproximadamente 200 pessoas aproveitaram a experiência, o que demonstra o aumento do interesse e da visibilidade gerados por influenciadores digitais que participaram da atração.
Para a guia de turismo Nayara Martins, a experiência de ver a bioluminescência pessoalmente é “algo muito surreal”. Ela relata que “parece que a água vira um céu estrelado, só que ao invés de olhar para cima, você vê tudo brilhando ao seu redor”. Segundo Nayara, essa sensação é “meio mágica, como se estivesse em um filme mesmo”.
Nayara enfatiza a importância de ter um profissional experiente durante o passeio. Segundo ela, a guia “explicou direitinho como a bioluminescência acontece, que são microorganismos na água que emitem luz quando são movimentados”. Além disso, a guia “deu dicas para aproveitar melhor a experiência, como mexer a água devagar para ver o efeito acontecendo de forma mais intensa”.
@umaguiapeloes Próxima data amanhã 20/02/25 ás 19h Link na bio ou me peça que eu envio! #radicaloficialbr #remadavitoriaes #praiadaguarderia #oquefazeres ♬ som original – Nay- Uma Guia pelo ES
Como funciona a bioluminescência?
De acordo com o biólogo Daniel Gosser Motta, Mestre em Biologia Animal pela UFES e vice-presidente do Conselho Regional de Biologia do Espírito Santo (CRBio10), o fenômeno ocorre devido ao aumento de nutrientes na água, associado ao descarte incorreto de esgoto e à falta de chuvas. “Mesmo sendo bonito, é um indicativo de poluição. Esses dinoflagelados podem liberar toxinas perigosas para a saúde humana e o ecossistema marinho”, explica.
A bioluminescência é o resultado da degradação da proteína luciferina pela enzima luciferase, processo que emite luz. Presente em diversos organismos, como bactérias e fungos, essa habilidade evoluiu para funções como comunicação, defesa contra predadores e reprodução. Por exemplo, vaga-lumes utilizam o brilho para atrair parceiros, enquanto algumas lulas usam a luz para despistar predadores em águas profundas.
Microalgas, como as dinoflageladas, são as responsáveis pelo fenômeno observado em Vitória. Essas algas unicelulares proliferam em águas ricas em nutrientes, especialmente em períodos de temperaturas elevadas, como no verão. A ação humana, no entanto, tem contribuído para o aumento da concentração desses organismos, agravando os riscos ambientais.
Evolução da bioluminescência em organismos marinhos
A convergência evolutiva explica por que bactérias, fungos e peixes abissais desenvolvem bioluminescência sem ancestral comum. Segundo Luiz Francisco, biólogo e professor, a característica surge aleatoriamente, mas permanece por oferecer vantagens, como atrair presas ou parceiros.
Reações químicas são a base do fenômeno: algumas liberam energia em forma de luz. Apesar do mecanismo exato ser desconhecido, fatores como temperatura e nutrientes influenciam sua ocorrência. Por exemplo, decomposição de animais ou poluição podem elevar nutrientes na água, estimulando micro-organismos.
Além disso, a função ecológica varia. Enquanto algumas espécies usam luz para comunicação, outras a empregam como camuflagem. Vagalumes e lulas ilustram essa diversidade: não há direcionamento na evolução, apenas seleção de traços vantajosos.
Sobre regulação da luz, organismos que otimizam energia tendem a se reproduzir mais. Desperdício ou economia excessiva de recursos são eliminados naturalmente. Em humanos, toxinas associadas à bioluminescência geralmente causam irritação leve, sem riscos graves em condições normais.
Impactos e riscos para o ambiente e a saúde
Embora os passeios noturnos para observar o fenômeno sejam uma experiência única, é importante considerar os impactos. A proliferação de dinoflagelados está diretamente ligada à poluição, e algumas espécies podem liberar toxinas, como a saxitoxina, que afeta o sistema nervoso e pode causar paralisia ou até a morte, dependendo da concentração.
Além disso, o aumento da atividade turística em áreas afetadas pode intensificar a contaminação, colocando a saúde dos visitantes em risco. Denúncias de descarte irregular de esgoto na região reforçam a necessidade de maior fiscalização e investimentos em saneamento. Segundo o biólogo Daniel Gosser Motta, a CESAN deveria conectar as residências à rede de tratamento, evitando o despejo direto no ambiente.
Uma ferramenta para ciência e medicina
Apesar das preocupações ambientais, a bioluminescência também traz benefícios significativos. Na medicina, por exemplo, cientistas utilizam genes luminosos para rastrear células humanas e monitorar doenças como o câncer. Essa técnica permite acompanhar o crescimento de tumores em tempo real, contribuindo para o desenvolvimento de tratamentos eficazes.
Além disso, a descoberta de organismos luminosos em ambientes extremos, como o fundo do mar, ajuda a compreender mais sobre a biodiversidade e a evolução da vida. O tubarão-kitefin, encontrado recentemente, é um exemplo de como a bioluminescência continua revelando os mistérios do oceano.
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