fbpx

xColunas

Pixinguinha, perereca e Meio Ambiente em uma mesma roda de choro?

Músico é homenageado na descoberta de uma nova espécie no município de Santa Teresa, na região Central Serrana do Espírito Santo

Publicado

em

Por João Victor A. Lacerda

> Quer receber as principais notícias do ES360 no WhatsApp? Clique aqui e entre na nossa comunidade!

Apesar de todas as dificuldades, nós brasileiros podemos nos considerar privilegiados em muitos aspectos e nos orgulhar de alguns valiosos patrimônios. Um deles é a música: samba, bossa nova, axé, forró, maracatu, sertanejo, entre outros, estão entre os nossos gêneros musicais apreciados mundo afora. Outro grande motivo de orgulho refere-se às riquezas de nossas florestas. Somos um dos países campeões em diversidade de animais e plantas! Mas, infelizmente, ainda não aprendemos a dar valor a essa dádiva. Nossa Mata Atlântica é um dos biomas mais diversos do planeta, porém é também um dos mais ameaçados, já que sua maior parte se encontra inteiramente devastada. Maravilhados com nossa riqueza musical e sufocados por essa contradição que envolve alegria pela riqueza que possuímos e tristeza por tudo que já perdemos, nós, membros do Projeto Bromeligenous – IMD e pesquisadores do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), traduzimos esse sentimento misturando Pixinguinha, pererecas e Meio Ambiente numa mesma roda de “choro”.

À esquerda, a espécie recém-descoberta Scinax pixinguinha; à direita, o músico Alfredo da Rocha Vianna Filho (1897 - 1973), popularmente conhecido como Pixinguinha. Fotos: JVALacerda e Domínio público/Acervo Arquivo Nacional

À esquerda, a espécie recém-descoberta Scinax pixinguinha; à direita, o músico Alfredo da Rocha Vianna Filho (1897 – 1973), popularmente conhecido como Pixinguinha. Fotos: JVALacerda e Domínio público/Acervo Arquivo Nacional

O choro, ou chorinho, é um gênero musical brasileiro surgido no século XIX. Apesar do seu nome remeter ao lamento, é comumente contemplado em momentos festivos, de alegria e celebração. Assim, o grande mestre Alfredo da Rocha Vianna Filho (1897–1973), nosso saudoso e talentoso Pixinguinha, era considerado uma espécie de mágico que tinha o dom de transformar notas de choro, o ritmo, em lágrimas de felicidade. Até aí tudo bem, mas, afinal, o que tem a ver Pixinguinha com Meio Ambiente? É que, recentemente, descobrimos uma nova espécie de perereca no município de Santa Teresa, na região serrana do Espírito Santo. Inicialmente, achamos que pudesse ser alguma já conhecida, mas que, até então, nunca havia sido encontrada na região. Com o avançar das nossas pesquisas, porém, descobrimos que não estávamos apenas diante de um novo registro para o município, mas sim de um novo achado para o planeta! Isso mesmo, tratava-se de uma espécie, até então, desconhecida pela ciência. Tal descoberta foi, para nós, uma grande injeção de ânimo. Assim, constatar que esse pouco que restou da Mata Atlântica ainda nos reserva grandes surpresas transformou nosso choro em um lampejo de felicidade, tal qual Pixinguinha fazia com maestria. Por isso, consideramos uma justa homenagem batizar a nova espécie de perereca-pixinguinha: para a ciência, Scinax pixinguinha!

A perereca-pixinguinha difere da maioria das demais espécies pelo seu reduzido tamanho (2,4-3,8 cm), coloração noturna amarelo vivo, padrão de manchas no dorso e nas virilhas e canto característico. O achado se deu em abril de 2020 e, depois de um ano de muita investigação, foi coroado com a publicação da descrição da nova espécie no periódico científico internacional Ichthyology & Herpetology, no dia 29 de junho de 2021. Agora que foi formalmente apresentada à ciência, novos estudos devem ser conduzidos para se investigar, por exemplo, se a espécie ocorre em outras regiões, como e quando se reproduz e quais fatores podem, potencialmente, levá-la à extinção. Descobertas como essa também possuem importância direta para nós seres humanos. Sapos, rãs e pererecas se alimentam de pequenos invertebrados, como mosquitos, aranhas e besouros, atuando, com isso, como controladores de pragas agrícolas e vetores de doenças que tanto assolam a humanidade. Além disso, esses animais podem secretar uma grande diversidade de compostos bioativos que vêm sendo explorados pela indústria farmacológica devido ao seu possível uso no tratamento de doenças como diabetes, leishmaniose e doença de chagas. Diante disso, a descoberta de novas espécies, como a perereca-pixinguinha, também representa nova possibilidade no campo da saúde.

Acima, a espécie recém-descoberta Scinax pixinguinha exibindo sua coloração noturna (à esquerda) e diurna (à direita). Abaixo, ambiente em que a nova espécie foi encontrada no município de Santa Teresa, na região serrana do Espírito Santo. Fotos: JVALacerda

Acima, a espécie recém-descoberta Scinax pixinguinha exibindo sua coloração noturna (à esquerda) e diurna (à direita). Abaixo, ambiente em que a nova espécie foi encontrada no município de Santa Teresa, na região serrana do Espírito Santo. Fotos: JVALacerda

Por fim, cabe ainda destacar que, para seguirmos revelando a biodiversidade e, com isso, conhecendo melhor o planeta em que vivemos, é necessário ampliarmos, cada vez mais, o incentivo à Ciência e a proteção das florestas. É triste pensar nisso, mas, diante da carência de pesquisadores e elevadas taxas de desmatamento, muitas espécies certamente estão sendo extintas antes mesmo de serem descobertas. Precisamos, juntos, reverter esse quadro!

Confira o vídeo produzido sobre o assunto:

Sobre o autor

João Victor A. Lacerda. Foto: Divulgação

João Victor A. Lacerda. Foto: Divulgação

Dr. João Victor A. Lacerda é biólogo, pesquisador do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) e membro do Projeto Bromeligenous – IMD.

Pela Natureza, o Melhor da nossa Humanidade

O Instituto Marcos Daniel é uma associação privada sem fins lucrativos qualificada como OSCIP (Organização da Sociedade Civil de interesse Público. Fundado em 2004, o foco de atuação do IMD é a elaboração e execução de projetos de conservação da biodiversidade e a formação de multiplicadores para a conservação da natureza. Neste propósito, temos contado com o apoio institucional de diversos órgãos públicos, universidades, ONGs e empresas, formando uma rede de elevado capital social e ampla capilaridade na sociedade, promovendo assim a conservação do maior patrimônio do Brasil, a sua biodiversidade.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do ES360.