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Os insetos estão acabando!

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  • Por Cecilia Waichert

Apesar do título alegrar a muitos, na verdade, o declínio no número de insetos é uma preocupação global e extremamente inquietante. Insetos, como abelhas, borboletas, moscas, besouros e louva-a-deus, são os animais mais abundantes e diversos do planeta, e por isso, não é de admirar que eles desempenhem papéis principais em diversas funções nos ecossistemas. Papéis que vão desde polinização de plantas silvestres e cultivadas, supressão de pestes e a reciclagem de nutrientes. Há insetos que se alimentam de plantas, de outros insetos, de coisas mortas. Há, até mesmo, aqueles que comem fezes de vertebrados. Eles próprios são fonte importante de alimento para vários animais como pássaros e peixes de água doce. Em se tratando de serviços ecossistêmicos* prestados a humanidade, seus serviços foram avaliados em aproximadamente 70 bilhões de dólares em 2020!

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Abelhas nativas iraí dispostas na entrada do ninho em defesa e prestes a saírem em busca de recursos energéticos para a colmeia. Foto: Felipe Bertholdi Fraga (@fbfraga_photo)

Abelhas nativas iraí dispostas na entrada do ninho em defesa e prestes a saírem em busca de recursos energéticos para a colmeia. Foto: Felipe Bertholdi Fraga (@fbfraga_photo)

Preocupantemente, estudos mostram que a abundância de insetos tem declinado em taxas alarmantes em todo o mundo. Na Alemanha, estudos indicaram um declínio de 76% na biomassa de insetos voadores, podendo chegar a 82% de diferença nessa biomassa durante o verão. O estudo incluiu 63 reservas naturais da Alemanha e reflete dados coletados ao longo de 27 anos.

Em florestas tropicais essa diferença pode aumentar. Em Porto Rico, em 2015, foi constatada uma queda na biomassa de artrópodes* de até 60 vezes quando comparados com dados semelhantes, porém coletados em 1978.

A diminuição de populações de abelhas, por exemplo, preocupa por seu impacto econômico direto na polinização de plantações e na produção melífera. Países europeus, EUA e Brasil já constataram queda nas populações de abelhas e a União Europeia baniu alguns agrotóxicos apontados como uma das causas desse declínio. Nos EUA apicultores estimaram gastos extras de $2 bilhões de dólares nos últimos anos para repor colmeias e abelhas perdidas.

Cigarrinha-de-pedúnculo sobre uma vegetação urbana de Vitória. Detalhe no canto inferior direto, uma vespa parasitoide sobre a postura da cigarrinha. As larvas das vespas parasitoides se alimentam de larvas e adultos de outros artrópodes e são amplamente usadas como controladores biológicos de pragas. Foto: Felipe Bertholdi Fraga (@fbfraga_photo)

Cigarrinha-de-pedúnculo sobre uma vegetação urbana de Vitória. Detalhe no canto inferior direto, uma vespa parasitoide sobre a postura da cigarrinha. As larvas das vespas parasitoides se alimentam de larvas e adultos de outros artrópodes e são amplamente usadas como controladores biológicos de pragas. Foto: Felipe Bertholdi Fraga (@fbfraga_photo)

No Brasil ainda não há estudos amplos avaliando o declínio de insetos. Mesmo assim, algumas pessoas mais atentas já devem ter notado que, em pleno verão, quase não ouvimos mais cigarras cantando, ou como os vidros dos carros não se enchem mais de insetos esmagados após uma viagem, mesmo que sua incursão seja para o sítio da família; ou ainda como nossas luzes não se enchem mais de mariposas e outros bichos noturnos. O mundo natural está mais silencioso.

As causas podem ser várias. Mudanças climáticas foram associadas ao estudo em Porto Rico. Além de alterações climáticas, as reduções e mudanças drásticas de habitat, como transformação de área nativa em cultivada, e uso de pesticidas também são correlacionados a diminuição. Introdução de espécies exóticas e patógenos também prejudicam populações naturais.

A diminuição da massa de insetos afeta todos nós. Menos polinizadores afeta diretamente a agricultura. A cadência dos insetos também influencia os ecossistemas e toda a cadeia alimentar. Sem insetos, inúmeros pássaros e outros vertebrados também sumirão. A reciclagem de nutrientes é afetada: ao se alimentar de detritos, os insetos deixam os nutrientes disponíveis de volta para o ambiente, prontos para serem reutilizados pelas plantas na produção de mais matéria.

Você pode não ser fã de insetos. Mas estamos lidando com um problema relacionado com nossa própria sobrevivência e qualidade de vida. Precisamos de alimentos, nossos alimentos precisam de nutrientes e de polinizadores, os ciclos dos nutrientes e a polinização precisam de insetos, animais precisam de insetos, por fim, nós precisamos dos insetos. Cada um de nós, mesmo de casa, podemos ajudar nessa causa. Além de pressionar por políticas públicas de proteção de áreas naturais e abstenção de certos químicos em lavouras, nós podemos contribuir mantendo áreas verdes em nossas residências e próxima a ela, favorecendo plantas, árvores e flores nativas. Esses ambientes naturais, apesar de pequenos aos nossos olhos, servem de abrigos para várias espécies. Diminuir o uso de luz artificial irá ajudar os insetos noturnos e, por fim, podemos ainda ser “embaixadores dos insetos”, promovendo fotos e informação deles em nossas redes sociais. Afinal, ninguém defende aquilo que não conhece, não é mesmo? Vamos lá? Proteger os insetos é ajudar na sobrevivência humana.

*Artrópodes – animais invertebrados com um esqueleto externo como insetos, aranhas, caranguejos, etc.
*Serviço ecossistêmico – bens e serviços que nós obtemos dos ecossistemas direta ou indiretamente.

Sobre a autora

Cecilia Waichert. Foto: Divulgação

Cecilia Waichert. Foto: Divulgação

Cecilia Waichert é bióloga e PhD em Biologia pela Utah State University (EUA). Professora na Universidade de Vila Velha (UVV) onde coordena o Laboratório de Biodiversidade de Insetos Neotropicais e desenvolve pesquisas sobre biodiversidade e evolução de vespas com ferrão. É componente do Projeto Bromeligenous (IMD).

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Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do ES360.