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Coluna João Gualberto

Newton Braga

Newton Braga é resgatado como figura central da literatura e da cultura capixaba, com obras que unem lirismo e valorização da identidade de Cachoeiro

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A trajetória de Newton Braga, marcada pela simplicidade e pelo amor à cultura de Cachoeiro, revela um escritor de estilo refinado que deixou sua marca na literatura capixaba. Foto: Reprodução

A trajetória de Newton Braga, marcada pela simplicidade e pelo amor à cultura de Cachoeiro, revela um escritor de estilo refinado que deixou sua marca na literatura capixaba. Foto: Reprodução

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captando pedaços de todas as dores do mundo,

e que me fará morrer de dores que não são minhas.

(Versos finais do poema Fraternidade)

Todos os que leem esta coluna certamente conhecem o grande cronista Rubem Braga, o “rei do texto leve”, como a ele costuma se referir Rogério Medeiros, ele também uma estrela do nosso jornalismo investigativo. Rubem brilhou no jornalismo brasileiro desde o fim da II Guerra até sua morte, no início dos anos 1990. Quase todos sabem, também, que ele nasceu em Cachoeiro de Itapemirim, no início do século XX – mais exatamente em 1913 – e que gostava muito de se referir a sua cidade natal em suas crônicas.

O que nem todos sabem é da importância igualmente como escritor, mas também como grande animador cultural, de seu irmão mais velho, Newton Braga. Ele viveu uma vida curta: morreu aos 51 anos, no Rio de Janeiro, em 1962, para onde havia se mudado três anos antes. Dono de um texto leve e elegante, foi escritor muito talentoso, mas produziu pouco. Sua literatura é feita a conta-gotas, dentro de seu estilo pessoal pouco afeito a muitas exibições. Talvez por essa excessiva modéstia não tenha alcançado todo o sucesso que certamente mereceu.

Ele gostava das coisas mais simples: pescar, ler, conviver com os amigos, e teve a vida marcada por essa simplicidade. Seus filhos, Marília, Raquel e Edson, organizaram, em 2011, ano em que o escritor faria cem anos, um livro com ricos depoimentos sobre sua trajetória, sob o título Newton Braga, cachoeirense ausente.

Helena Carone, em sua introdução e no texto em que explica o método utilizado nas entrevistas, revela, entre tantos outros fatos, que, além de escritor, Newton foi o criador do Dia de Cachoeiro e do título de Cachoeirense Ausente, dado anualmente a um personagem importante para a cidade e que não mais more naquele município.

Jornal, rádio, carnaval, festa da cidade, teatro, literatura, política, esporte, educação, publicidade, folclore e até bate-papo no bar, nada acontecia em Cachoeiro que não fosse ideia de Newton Braga, “coisas do Dr. Newton”.

Segundo depoimento de seu compadre e grande amigo Newton Meirelles, Braga militou na Esquerda Democrática (que depois se transformou no PSB), mas por causa do grupo de amigos e não pelas ideias políticas. O amigo o achava individualista, portanto não poderia ser socialista. Newton Braga, na verdade, achava que a Esquerda Democrática podia fazer coisas boas pela cidade e aproveitou muitas dessas ideias fora do campo partidário. Chegou, sem entusiasmo, a ser candidato a vereador. Teve poucos votos.

Em sua obra destaca-se um pequeno e muito interessante livro chamado Histórias de Cachoeiro, que trata dos principais acontecimentos de sua cidade natal, citando seus primeiros grandes marcos, como jornais, jornalistas, escolas e professores. É, sem dúvida, um chamado à cultura cívica de sua terra, feito para a juventude.

Depois da morte de Newton, Rubem Braga reuniu boa parte de seus escritos publicados em vida para uma nova edição. Nela estava Cidade do Interior, originalmente parte da coleção “Os Cadernos de Cultura” do Serviço de Documentação do Ministério da Educação, que continha uma seleção de “casos e epigramas” publicados por Newton, durante muitos anos, no suplemento dominical do Diário de Notícias do Rio.

Ele preparava uma segunda coletânea para a Editora do Autor quando a morte o colheu. Rubem terminou esse trabalho para seu irmão. Por definição, epigramas são curtos e cortantes, exigindo muita perícia de quem os redige, seja pela veia satírica, seja pela concisão das ideias.

Quando morreu, Newton preparava a edição de um livro contendo novos casos e epigramas. Como já morava no Rio de Janeiro, tinha uma outra direção na sua escrita, que então se destinava à veiculação na grande imprensa carioca da época.

Lirismo Perdido é um inspiradíssimo livro de poemas que reúne grande parte de sua produção poética. Nele há uma linda reflexão sobre a vida chamada Fraternidade, que termina com os versos que reproduzi para iniciar este texto em homenagem a um grande, e hoje esquecido, autor capixaba.

 

João Gualberto

João Gualberto é professor Emérito da Universidade Federal do Espírito Santo e Pós-Doutor em Gestão e Cultura (UFBA). Também foi Secretário de Cultura do Espírito Santo de 2014 a 2018. João Gualberto nasceu em Cachoeiro do Itapemirim e mora em Vitória, no Espírito Santo. Como pesquisador e professor, o trabalho diário de João é a análise do “Caso Brasileiro”. Principalmente do ponto de vista da cultura, da antropologia e da política.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do ES360.