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Coluna Vitor Vogas

Conheça o capitão da PM que quer ser governador do ES

Declaradamente marxista, Vinicius Sousa é pré-candidato do PSTU ao Governo do Estado, defende a liberação das drogas e quer desmilitarizar a polícia

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Capitão Vinícius Sousa. Foto: Reprodução/Whatsapp

Um capitão que reprova o governo do também capitão Bolsonaro. Um militar que defende com vigor a desmilitarização da Polícia Militar. Um oficial da polícia que apoia, enfaticamente, a legalização não só da maconha, mas de todas as drogas. É com esse cartão de visitas, contrariando o senso comum, que o capitão Vinícius Sousa, da Polícia Militar do Espírito Santo (PMES), lançará nesse sábado (14) a sua pré-candidatura a governador do Estado, pelo Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), legenda de orientação marxista, assim como o próprio Sousa.

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O ato de lançamento ocorrerá em um restaurante na Rua da Lama, em Jardim da Penha, às 17 horas, e contará com a presença da pré-candidata do PSTU à Presidência da República, a cientista social sergipana Vera Lúcia Salgado. Na ocasião também será lançado o candidato do PSTU ao Senado pelo Espírito Santo, o servidor de carreira da Ufes Filipe Skiter. Foram convidados representantes de movimentos sociais e de outras organizações políticas de esquerda, como a Unidade Popular (UP), o PCB, o Psol e alguns militantes do PT.

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Sousa conta que, no lançamento, também será apresentado o manifesto do PSTU nestas eleições, o qual, segundo ele, sintetiza as pautas da luta dos trabalhadores:

“O espírito do manifesto é apresentar que essa candidatura não é um fim em si mesmo. Não temos como principal objetivo a disputa eleitoral. Esta é muito limitada para a classe trabalhadora, porque é muito influenciada pela grana neste espaço de uma política vulgarizada. Entretanto isso revela a necessidade até maior de, durante o período eleitoral, apresentarmos à classe trabalhadora as alternativas que ela tem.”

Quais alternativas? Eis o ponto fulcral.

Sousa se declara um homem de inspiração marxista leninista – logo, anticapitalista. E, tal como o seu partido, o que ele prega, em última análise, é a deflagração de um processo revolucionário, por meio da organização das classes trabalhadoras, que culmine com a superação do capitalismo pela construção de um regime socialista – transformando assim, radicalmente, toda a forma de organização da sociedade, da economia e do próprio Estado. Só isso.

E não é um socialismo historicamente revisado, tampouco um socialismo mais brando (ou numa versão mais light), que coexista com a economia de mercado e com a democracia liberal, como aquele preconizado por partidos social-democratas e por partidos socialistas europeus na atualidade. É aquele “socialismo raiz” mesmo: aquele diretamente inspirado no ideário de Marx e Engels, que visa aplicar o pensamento marxista, sem filtros, na sociedade atual, tal como na revolução bolchevique de 1917, na linha da “revolução proletária” e “todo o poder para os trabalhadores”.

“Esse processo de luta organizada é o que chamamos de revolução brasileira. Não adianta uma luta organizada que não esteja ancorada num projeto socialista revolucionário. Defendemos não somente a rebelião da classe trabalhadora, mas a sua organização baseada nos seus interesses”, apregoa Sousa, frisando a palavra “organização”: “Nem um minuto de desordem”.

“Defendemos a superação do capitalismo e a construção de um regime socialista no país. Defendemos a transformação da sociedade capitalista em uma sociedade que seja voltada não só para os grandes empresários, rentistas e banqueiros, mas que esteja a serviço dos trabalhadores. Para a construção dessa nova sociedade, é necessária uma transição gradativa que demanda uma ruptura. E não é possível construir isso sem a luta dos trabalhadores, pois haverá resistência das elites capitalistas. O Estado liberal está a serviço do poder econômico e não do povo. Sua superação demanda uma revolução dos trabalhadores”, postula o capitão.

Nessa nova organização do Estado idealizada por Sousa, todo o poder seria exercido diretamente pelo povo através da formação de conselhos populares – em todas as esferas, basicamente.

Um exemplo: por meio de votação direta, os moradores de determinada comunidade elegeriam os representantes do seu conselho popular. A este caberia, por exemplo, escolher o comandante do batalhão de polícia responsável pela segurança pública naquela comunidade.

Já o comandante-geral da PMES (ou força de segurança substituta) não seria nomeado pelo governador do Estado, mas escolhido por votação direta entre todos os membros da corporação, tendo os votos peso paritário independentemente da patente: o voto de um praça teria o mesmo peso do voto de um coronel. “O comando da corporação não deve caber ao governador, mas à população. Mesmo formato para o serviço de transportes públicos, caminhando para a tarifa zero, e para todas as outras instituições que prestam serviços públicos à população”, preconiza Sousa.

“A democracia burguesa tem muitos limites. Não permite a promoção de melhorias na vida do trabalhador. Isso só é possível a partir da luta dos trabalhadores. Todo poder político aos conselhos populares comunitários e à população trabalhadora, para que haja um processo verdadeiramente democrático, em que tudo seja decidido pelo povo”, formula o pré-candidato.

Desmilitarização da Polícia

Em que pese ser ele mesmo um militar, Sousa defende abertamente que a Polícia Militar seja desmilitarizada:

“Sim, defendo a desmilitarização, com carreira única em todas as polícias, inclusive na Civil, que é o modelo adotado internacionalmente. Hoje, no Brasil, a PM tem duas portas de entrada: ou você entra como praça ou como oficial, e um praça jamais poderá chegar a oficial. Foi o que aconteceu comigo: entrei como praça e depois, para me tornar oficial, tive que passar em outro concurso, para fazer o CFO [Curso de Formação de Oficiais].”

Na visão de Sousa, como braço armado de um “Estado patrimonialista”, a polícia também é digna do predicativo:

“A polícia é uma instituição que também cumpre um papel neste Estado burguês. É uma instituição patrimonialista. Não os policiais em si, mas a instituição, como órgão estatal que é, porque o nosso Estado é patrimonialista, e a polícia é parte deste Estado. A polícia democratizada, com esses mesmos policiais servindo à classe trabalhadora, em outro formato completamente diferente de organização, seria uma instituição democrática. Dizem que a polícia é truculenta. Não é a polícia que é truculenta. É o Estado que é truculento. E a polícia é o braço armado deste Estado.”

Descriminalização das drogas

“Defendo a descriminalização da maconha e de todas as drogas”, diz Sousa. “A questão das drogas não pode ser tratada como crime. É um absurdo ser tratada dessa forma. É questão de saúde pública. Isso é jogar no colo de policiais uma atribuição para a qual não estão preparados e depois culpá-los pelas contradições inerentes à política de criminalização.”

Miniperfil

Vinícius Sousa tem 38 anos. É casado e tem três filhos. É formado em Direito, tendo iniciado o curso na PUC-MG e concluído na faculdade Multivix (unidade de Castelo). Nascido em Belo Horizonte, radicou-se no Espírito Santo em 2007.

No ano seguinte, entrou como soldado na PMES. Em 2012, foi aprovado e ingressou no Curso de Formação de Oficiais da PMES, saindo como aspirante em 2014. No ano seguinte, virou tenente e, desde o início de 2020, é capitão da ativa. Atualmente exerce função administrativa no 9º Batalhão da PMES em Cachoeiro de Itapemirim.

“Sempre fui um homem de esquerda”, declara. Foi efetivamente filiado ao PT até 2008, ano em que iniciou o curso de formação de soldados e, por isso, precisou se desligar do partido – já que a Constituição Federal veda filiação partidária a militares.

Em 2019, pelo Patriota, concorreu a prefeito de Castelo, sem sucesso, numa eleição suplementar. Na verdade, ele estava ligado ao PRP, que havia acabado de se fundir ao Patriota (hoje um partido de direita). Em 2020, foi candidato a vice-prefeito de Cachoeiro, pela Rede Sustentabilidade, na chapa encabeçada por Joana D’ark, do PT, também sem êxito nas urnas.

Sousa pertence ao movimento “Policiais Antifascismo”, fundado em 2017. Ele o define como “um movimento social de trabalhadores da segurança pública que visa à democratização da segurança pública no país”.

Vitor Vogas

Nascido no Rio de Janeiro e criado no Espírito Santo, Vitor Vogas tem 39 anos. Formado em Comunicação Social pela Ufes (2007), dedicou toda a sua carreira ao jornalismo político e já cobriu várias eleições. Trabalhou na Rede Gazeta de 2008 a 2011 e de 2014 a 2021, como repórter e colunista da editoria de Política do jornal A Gazeta, além de participações como comentarista na rádio CBN Vitória. Desde março de 2022, atua nos veículos da Rede Capixaba: a TV Capixaba, a Rádio BandNews FM e o Portal ES360. E-mail do colunista: [email protected]

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