fbpx

Bem-estar

Diagnóstico tardio de autismo muda a vida de adultos no Brasil

Relatos mostram como a descoberta do transtorno em idade avançada ajuda na compreensão de crises e melhora a qualidade de vida

Publicado

em

Autismo

Durante boa parte da vida, a nutricionista Beatriz Lamper Martinez, de 48 anos, conviveu com crises emocionais, dificuldade de socialização e sensação constante de inadequação. Era tratada para depressão e ansiedade desde 2013, mas sem resultado duradouro. Só em setembro do ano passado recebeu o diagnóstico que explicaria sua trajetória: transtorno do espectro autista (TEA), nível 1 de suporte, popularmente conhecido como autismo leve.

> Quer receber as principais notícias do ES360 no WhatsApp? Clique aqui e entre na nossa comunidade!

A descoberta só aconteceu após o convívio com o pai de uma criança autista. As semelhanças entre os relatos sobre o transtorno e as próprias experiências a levaram a procurar ajuda especializada. “Muda medicação, aumenta medicação, mas eu nunca ficava estável”, relatou Beatriz à Agência Brasil. O diagnóstico, segundo ela, foi uma libertação. “Antes, eu achava que era uma recaída. Hoje, sei que estou tendo uma crise. Preciso descansar, ficar quieta, dormir. E, com isso, vou melhorar.”

Mulheres costumam receber o diagnóstico mais tarde

Assim como Beatriz, a publicitária Cecilia Avila, de 24 anos, só teve a confirmação do diagnóstico na vida adulta. Desde criança, apresentava sensibilidade extrema a sons e texturas, dificuldade para fazer amigos e para compreender ironias. Mas nunca houve investigação sobre TEA.

Foi apenas ao ouvir o relato de uma colega com diagnóstico semelhante que passou a desconfiar das próprias características. “A gente cresceu ouvindo que era frescura, drama, birra. Quando vem o diagnóstico, é um alívio, mas também traz dúvidas. A gente pensa: ‘Será que sou mesmo autista?’. Mas aos poucos a ficha vai caindo.”

Cecilia aponta um conjunto de fatores que contribuem para o diagnóstico tardio: falta de informação, dificuldade de acesso ao sistema de saúde, ausência de apoio familiar e questões financeiras. “Muitos pais só descobrem que também são autistas quando os filhos são diagnosticados e eles se reconhecem nos mesmos traços.”

Falta de informação e estigma atrasam o diagnóstico

Segundo o psicólogo Leandro Cunha, o diagnóstico tardio é mais comum em casos de autismo leve, nos quais os sinais são mais sutis. “Indivíduos com TEA nível 1 de suporte podem apresentar dificuldades discretas na comunicação e na interação social. Muitas vezes, isso é confundido com outras condições, como TDAH ou transtornos de humor”, explica.

Além disso, a falta de conhecimento sobre o espectro e o estigma social dificultam a identificação dos sinais, principalmente entre adultos. “Há uma ideia cultural de que autismo é algo que só se manifesta na infância. Isso atrasa o reconhecimento dos sintomas e impede o acesso ao apoio necessário”, afirma Cunha.

Diagnóstico melhora autoestima e promove inclusão

Mesmo quando ocorre tardiamente, o diagnóstico pode trazer impactos positivos. Segundo Cunha, identificar o transtorno permite ao indivíduo entender seus próprios limites, buscar terapias adequadas e construir uma rotina mais saudável. “Muitas vezes, o adulto não sabe o que tem. Vive confundindo sintomas, sem tratamento adequado. Isso interfere na vida acadêmica, profissional e afetiva.”

Para Beatriz, o reconhecimento do autismo permitiu ajustar a rotina de trabalho e lidar melhor com as próprias crises. No emprego, pediu transferência para um setor com menos estímulos sensoriais. Também entrou com pedido de reconhecimento como pessoa com deficiência (PCD), para garantir os direitos previstos em lei.

Cecilia também destaca os benefícios do diagnóstico. “Você passa a entender seus limites, o tempo que aguenta barulhos, luzes, interações. Não é frescura. O diagnóstico ajuda a reconstruir a sua história com mais compaixão.”

A ampliação do debate sobre o autismo em adultos, especialmente mulheres, e a inclusão de perguntas sobre TEA no próximo Censo, recentemente aprovada pelo Senado, podem ajudar a combater o diagnóstico tardio e melhorar o acesso ao suporte necessário.

Leia mais: