Trump x Biden antecipa o debate no Brasil em 2022 - ES360

Trump x Biden antecipa o debate no Brasil em 2022

Encontro entre candidato republicano e democrata tem temas parecidos com os discutidos hoje pelos brasileiros; estilo do atual presidente serve de referência para líderes conservadores de outros países

Covid-19, crise econômica, queimadas, uso de máscaras, acusações sobre família… O debate entre Donald Trump e Joe Biden na noite dessa terça-feira, dia 29, foi, de certa forma, uma antecipação do provável embate presidencial de 2022 no Brasil. Não só nos temas, mas principalmente no estilo: Trump é uma espécie de Messias para os conservadores no planeta, portanto, sua maneira de lidar com os fatos vira um exemplo a ser seguido. E ontem ele deu uma aula de seu estilo.

Trump faz questão de não obedecer às regras, porque, para líderes autoritários, regras foram feitas para os outros seguirem, não eles. Não são apenas regras institucionalizadas, como a obediência de tempo para respostas, mas regras básicas, de educação, de respeito ao direito de o outro se manifestar e apresentar suas ideias. Trump falava o tempo todo em cima das respostas de Biden, e conseguiu, muitas vezes, deixar o democrata, já conhecido por sua dificuldade em se expressar (Biden é gago…), sem concluir ideias, sem conseguir explorar pontos frágeis do presidente republicano, como o fato de ele não ter declarado Imposto de Renda por 10 anos.

Trump “cria sua narrativa” para os fatos, e insiste nelas, mesmo sem base factual alguma. Em outras épocas, isso era chamado de “mentira”, mas essa é outra história… Alguns exemplos: quando confrontado com os números da covid, o presidente afirmou: “Se não fosse pelas minhas decisões, teríamos dois milhões de mortos”. Não há estudo algum embasando essa afirmação, mas ele a pronúncia com ar professoral, dedinho para cima, e isso passa como “verdade”. Isso também ocorreu quando ele foi pressionado pelo mediado do encontro sobre seu Imposto de Renda. “O sr. pagou imposto? Quanto?”, perguntou Chris Wallace. “Milhões! Paguei bilhões!”, respondeu Trump, sem responder como e quando. Suas declarações de IR provam o contrário.

Trump, no entanto, conseguiu, à sua maneira, truculenta, ser o protagonista do debate. Biden reagiu em vários momentos. Chamou o presidente de “palhaço”, mandou-o calar a boca. E tentou falar diretamente com os eleitores, dirigindo-se a eles, olhando para a câmera. Quanto citava dados e números da gestão Trump, deixava o presidente visivelmente irritado. Para analistas norte-americanos, não foi o Biden passivo de outros momentos (Trump o chama de Joe “Dorminhoco”), mas é difícil ganhar no grito de uma figura truculenta como Trump. Biden tentou, e se estabeleceu o caos: ninguém entendia nada falado pelos dois candidatos.

Algumas pesquisas feitas logo depois do encontro apontam vitória de Biden. É cedo para termos noção clara da consequência eleitoral do “pior debate entre os candidatos a presidente desde o primeiro encontro, entre Nixon e Kennedy”. Há quem fale em empate. Aí Trump tem um problema: está atrás em diversas pesquisas a poucas semanas da votação. Ele deveria ter vencido com folga para alcançar reação entre os eleitores. Isso ele não conseguiu…

Trump conseguiu, certamente, passar para os líderes conservadores do planeta a sua noção sobre como debater: desrespeitar regras, interromper o adversário a todo momento, inventar dados, mentir, enfim. Eles todos assistiram, certamente, o debate de ontem. E devem seguir as lições do professor em seus países. Daqui a dois anos veremos se essas lições foram ou não bem aprendidas…

Antonio Carlos tem 32 anos de jornalismo. E um tempo bem maior no acompanhamento das notícias. Já viu muitos acontecimentos espantosos. Mas sempre se sente surpreendido por novos fatos, porque o inesperado é a maior qualidade das coberturas jornalísticas. E também da vida...

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