Trump declara vitória (ou: o breve relato de uma longa noite) - ES360

Trump declara vitória (ou: o breve relato de uma longa noite)

Mesmo com vários estados ainda contando votos, presidente dos EUA afirma ter vencido a eleição, fala em fraude e ameaça recorrer à Suprema Corte dos EUA

Às 04h32, horário de Brasília, 02h32, horário de Washington, Donald J. Trump encerrava um discurso na Casa Branca. Seus apoiadores, reunidos num dos salões da residência oficial do presidente dos Estados Unidos, tomavam champanhe e aplaudiam o candidato republicano. E aplaudiram ainda mais quando ele soltou a frase: “Francamente, nós ganhamos esta eleição”. Não fez isso de forma enfática. Mas fez a afirmação após ter levantado suspeitas pesadas sobre a contagem dos votos restantes, haver falado em fraude e em recorrer à Suprema Corte para parar a apuração. No momento do discurso, Trump tinha garantido 213 delegados, e Biden, 225. São necessários 270 para vencer a eleição.

Trump tem toda razão para estar otimista. A vitória na Flórida fez a noite de apurações começar muito bem para o presidente. E depois, assim como ocorreu em 2016, resultados começaram a contrariar os pesquisadores. O caso mais flagrante é o de Wisconsin, onde os aglutinadores de pesquisas apontavam para uma vitória muito confortável de Joe Biden. Mas com 80% dos votos apurados, Trump tem 51,1% do total, e Biden, 47,1%. (Atualização – no início da manhã, com 95% dos votos apurados, o número tornou-se favorável a Biden: 49,4% contra 49,1% de Trump. Biden ficou mais próximo da vitória em um estado importante, mas as pesquisas lhe davam mais de dez pontos de vantagem)

Além de Wisconsin, outros sete estados ainda não concluíram sua apuração. E Trump está à frente na maioria deles. Em muitos desses estados, no entanto, essa vantagem é apertada. Uma virada é difícil, mas não pode ser descartada. No caso especial da Pensilvânia há um grande problema: milhares de votos foram enviados pelo correio e existe a possibilidade de a contagem demorar dias para terminar. Lá, Trump tem 56% dos votos, Biden, 42,7%, com 73% do total apurado. Pensilvânia tem 20 delegados. Uma vitória no estado é fundamental para qualquer dos dois candidatos. E este é um dos alvos principais das desconfianças e do discurso acusatório de Trump, principalmente porque a tendência é de a maioria desses votos ser democrata.

O presidente foi dúbio em seu discurso na Casa Branca. Inicialmente, acusou seus adversários de terem preparado tudo (os votos pelo correio, a suspensão da contagem) para conseguir alguma maneira de “arrumar votos” depois das urnas fechadas. “Não vão nos roubar”, disse, num tuíte por volta de 03h00. Logo depois de acusar os democratas de quererem levar a disputa para a Justiça, ele anunciou: “Nós vamos à Suprema Corte”. Com a indicação de Amy Coney Barrett, há poucos dias, os juízes de perfil conservador, alinhados aos republicanos, passaram a ter maioria na Suprema Corte (seis a três).

Às 5 horas no Brasil, com a apuração suspensa, Biden tinha 238 delegados garantidos, e Trump, 213. Biden conseguiu uma vitória importante no Arizona. Análises feitas pelo jornal The New York Times apontam para a possibilidade de vitória do democrata na Geórgia, onde a disputa está apertada: com 91% dos votos apurados, Trump tem 50,6%, e Biden, 48,1%. A projeção aponta a possibilidade de uma vitória de Biden por uma diferença 0,5 ponto percentual. O democrata deposita suas esperanças em viradas aparentemente improváveis como esta, na Geórgia, e nos votos enviados pelo correio na Pensilvânia. As possibilidades, como se vê, são pequenas. E o tuíte disparado por Biden volta de 02h30 demonstra isso: “Mantenha a fé, cara”, disse o democrata, na constante tentativa de ser jovial (ele tem 77 anos). Quem tem certeza da vitória não pede “fé”…

Curiosamente, essa dúvida a respeito da vitória também foi verbalizada por Trump. Se o presidente tem tanta certeza sobre o restante dos votos a serem contados (“Eles não vão nos alcançar”, disse ele em seu discurso), não tem muito sentido o questionamento sobre o resultado. A declaração da vitória sem conclusão da eleição, a suspeita de fraude e a ameaça de recorrer à Suprema Corte ajudam a estimular ânimos já exaltados nos EUA. Durante toda a noite, manifestantes estiveram nos arredores da Casa Branca. Não houve violência.

As suspeitas de Trump podem não ter fundo de verdade. Mas ela é alimentada por algo concreto: o confuso sistema eleitoral norte-americano, com centenas de regras de votação e de apuração, variando de local para local. Já passou da hora de ele ser revisto. Talvez seja esta a principal lição de uma noite ainda longe de terminar…

Antonio Carlos tem 32 anos de jornalismo. E um tempo bem maior no acompanhamento das notícias. Já viu muitos acontecimentos espantosos. Mas sempre se sente surpreendido por novos fatos, porque o inesperado é a maior qualidade das coberturas jornalísticas. E também da vida...

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Comentários:

  • … assim, após tantos números, penso que prudente aguardar antes de anunciar, com certeza, a Vitória.

  • Americano gosta de dar show, a começar pelas eleições. Complexa demais!


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