Rio Doce: qualidade da água é vista com desconfiança - ES360

Rio Doce: qualidade da água é vista com desconfiança

Moradores de Colatina relatam sentir a diferença na pele e nos cabelos após o rio ser afetado pela lama de rejeitos da Samarco, em 2015

A lama de rejeitos da barragem de Mariana (MG) atingiu o rio Doce e afetou o abastecimento, por exemplo, de Colatina. Na região, assoreamento do rio também chama a atenção. Foto: Chico Guedes
A lama de rejeitos da barragem de Mariana (MG) atingiu o rio Doce e afetou o abastecimento, por exemplo, de Colatina. Na região, assoreamento do rio também chama a atenção. Foto: Chico Guedes

Quase quatro anos depois da passagem da lama com rejeitos de minério da barragem da Samarco, em Mariana (MG), a população de Colatina, região Noroeste do estado, ainda desconfia e resiste em utilizar a água do rio Doce – responsável por abastecer toda a cidade – para beber e cozinhar. Ao atingir o rio, a lama elevou a turbidez da água, impedindo seu tratamento e deixando a cidade colatinense sem abastecimento por sete dias.

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Desde então, boa parte dos moradores mantém o hábito de comprar galão de água mineral para beber e cozinhar. “Está longe de ser a água de antigamente. Muitas vezes, a água continua chegando marrom na nossa casa. A gente até usa, mas compra galão para tomar água de melhor qualidade. O que recebemos de indenização não dá nem para pagar os galões que compramos desde a lama”, reclama a funcionária pública Dirce Maria Pereira.

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Moradores também questionam os produtos químicos utilizados para tratar atualmente a água. O estudante Carlos Faria, 22 anos, diz que sente a diferença na pele e no cabelo. “A qualidade da água não é a mesma. Tem gosto de conservante e dá para sentir a diferença na pele e no cabelo. Em casa, só usamos água mineral para beber e cozinhar”, conta.

A vendedora Solange Rosa da Silva tem a mesma opinião de Carlos. Segundo ela, o gasto semanal com galão de água chega a R$ 30, mas considera o custo necessário diante da falta de confiança na qualidade do abastecimento. “Ingerir essa água é impossível… está contaminada. Tem mais química do que antes, dá pra sentir a diferença na pele e no cabelo. Minha filha tem dermatite, por isso evito que ela tenha contato com a água”, diz.

Para o Geraldo Avancine, diretor-administrativo da Sanear (Serviço Colatinense de Meio Ambiente e Saneamento Ambiental), a preocupação da população é natural, mas ressalta que a água distribuída atende aos parâmetros da portaria do Ministério da Saúde. “O tratamento utilizado hoje (com sulfato de alumínio) é o mesmo utilizado antes do rompimento da barragem”, explica.

Já Brígida Maioli, especialista de programa socioambiental da Fundação Renova – responsável pelos programas de recuperação após a tragédia de lama – destaca que são feitas análises tanto na água bruta quanto na tratada. “Todos os resultados mostram que a situação é parecida com a de antes. Entendemos a percepção da população. É difícil estabelecer a confiança porque as pessoas viram o rio ficar com a coloração avermelhada. Os metais são verificados e a água para fornecimento é livre de metais. Na água bruta os metais são os mesmos de antes do rompimento”, garante.

Taxa de nascimentos de tartarugas caiu em Regência

Ninhos das tartarugas estão marcados com estacas fincadas na areia. Foto: Chico Guedes
Ninhos das tartarugas estão marcados com estacas fincadas na areia. Foto: Chico Guedes

Destino final dos 32 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério, que saíram da barragem da Samarco em Mariana (MG), a praia de Regência, em Linhares, é o segundo ponto mais importante no país para a reprodução de tartarugas marinhas. Com a chegada da lama, o projeto Tamar identificou uma queda de 20% na taxa de eclosão dos ovos das tartarugas – quantidade de filhotes que nascem em cada ninho. Mais recentemente, os répteis também passaram a apresentar uma inflamação na mucosa do olho.

A bióloga do projeto Tamar Flávia Ribeiro explica que cada tartaruga coloca em média 120 ovos, sendo a média histórica de eclosão – momento do nascimento dos filhotes – de 80%. Na última temporada (2018/2019), essa taxa caiu para 60%. “Vamos trabalhar para entender melhor o tamanho do impacto na população de tartarugas. Precisamos de mais coletas de dados para saber o que está provocando isso. A tartaruga é um animal que não dá retorno a curto prazo”, explica a bióloga.

Outra situação recente foi a identificação da blefarite, uma inflamação nos olhos das tartarugas. “Nunca vimos isso antes, agora elas têm aparecido com os olhos bem inflamados e inchados. É um registro novo. A tartaruga é um animal forte e o aparecimento dessa inflamação é preocupante. É causada por algum fator externo”, destaca Flávia.

As tartarugas marinhas retornam a cada dois anos aos pontos de reprodução, no período que vai de setembro a março. Já novembro e dezembro são os meses em que mais ocorrem desovas. Os sete quilômetros da foz do rio Doce em direção ao sul são os trechos com mais número de desovas. Os ninhos são indicados por estacas fincadas na areia.

A bióloga explica que o monitoramento das tartarugas é feito em 159 km de praia, de Conceição da Barra a Aracruz, e teve capacidade ampliada depois de uma parceria com a Fundação Renova, em 2017.

Estudos também estão sendo realizados para identificar a causa da redução da taxa de nascimento dos filhotes de tartaruga marinha, segundo Bruno Pimenta, responsável pelas ações de biodiversidade da Renova.

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