Praia de Meaípe é a que a tem mais radiação em Guarapari, diz estudo da Ufes - ES360

Praia de Meaípe é a que a tem mais radiação em Guarapari, diz estudo da Ufes

Os estudos também apontam que a quantidade de minerais na praia varia conforme o local e o período do ano.

Praia de Meaípe, em Guarapari. Foto: Jefferson Pancieri/Setur

A praia de Meaípe é a que concentra maior quantidade de minerais em Guarapari, no litoral do Espírito Santo. É o que aponta pesquisa realizada pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Os estudos também mostram que a quantidade de minerais na praia varia conforme o local e o período do ano. Como a praia sofre com a erosão, que diminui sua faixa de areia, os pesquisadores também estudam formas de devolver a areia monazítica à praia. A segunda praia com mais concentração de areia monazítica é a Areia Preta, tradicionalmente conhecida pela presença dos minerais nas faixa de areia.

As pesquisas da areia monazítica, realizadas pelos professores José Passamai Jr e Marcos Tadeu Orlando, do Departamento de Física da Ufes, tiveram início há seis anos. O município de Guarapari, na região metropolitana do Espírito Santo, é conhecido por sua areia monazítica, com grande concentração natural de minerais, alguns deles com propriedades terapêuticas. Apesar de a legislação brasileira considerar aceitável a dose de radiação de, no máximo, 2,2 microSieverts (mSv), as praias do município apresentam doses maiores e, segundo os pesquisadores, elas são benéficas ao organismo humano, conforme demonstrado em estudos anteriores.

“Se fosse prejudicial, a população de Guarapari estaria toda doente, algo que dados do Sistema Único de Saúde (SUS) analisados em nossa pesquisa nessas praias mostraram que não acontece. Acreditamos que o nível certo de radiação pode vir a estimular a defesa do organismo”, afirma Orlando. Ele acrescenta que os países europeus consideram aceitável um índice de até 200 mSv, o que seria mais alinhado ao que os pesquisadores da Ufes vêm verificando em seus estudos.

Nas medições, realizadas durante o período de um ano, a praia de Meaípe registrou os maiores índices, chegando a 40 mSv. Em seguida, fica a praia da Areia Preta, cujo índice varia de 10,2 a 150 mSv. Já a praia das Castanheiras registrou um nível de radiação considerado normal e a da Bacutia, baixo.

Passamai Jr. destaca também as variações de índices conforme o local e a época do ano. “Na praia de Meaípe, por exemplo, poucas vezes a radiação está no mesmo lugar. Já na das Castanheiras, é comum encontrar sempre tanto na borda esquerda quanto na direita. Na da Areia Preta, também fica em uma área fixa de 350 metros de extensão – apesar de em algumas épocas do ano ela sumir, sempre volta ao mesmo local, mas varia a intensidade”, conta.

Ele aponta que o diferencial de sua pesquisa em relação a outras feitas no município capixaba reside no fato de ter registrado não só a presença da radiação, mas também suas variações conforme o tempo e o espaço. “Nos artigos que temos visto, as pessoas fazem medição de um dia só e fazem o retrato dele, não fazem medida contínua, e isso não é o suficiente”, analisa o professor.

Elementos de terra-rara

Durante a radiometria na praia de Meaípe, foram encontrados elementos terra-rara na areia. Esses componentes são substâncias químicas utilizadas na produção de itens tecnológicos e não são encontrados em nenhum outro litoral brasileiro. No mundo, elementos similares estão presentes somente em Querala, na Índia. Segundo Orlando, isso pode fazer da praia de Meaípe uma referência mundial em tratamentos com radiação.

Durante seu mestrado no Programa de Pós-Graduação em Engenharia Mecânica da Ufes, Arthur Cavichini estudou as amostras da areia e encontrou, em maior quantidade, o tório, o cério e o samário, sob a orientação do professor Orlando. Esses são os materiais mais caros e estratégicos para o Brasil, segundo os pesquisadores, pois são usados na produção de lentes, circuitos eletrônicos e ímãs de alta potência. “Apesar de ser um material significativo para o país, é preciso se atentar que, para explorá-lo, destrói-se a natureza”, contemporiza o orientador.

Erosão

Toda a riqueza encontrada em Meaípe, no entanto, encontra-se em risco, devido ao elevado grau de erosão da praia. Motivados por essa preocupação, os pesquisadores incluíram a questão ambiental no projeto de pesquisa. Em busca de informações mais precisas, foi instalada uma torre na praia (foto), em parceria com a Universidade de São Paulo (USP), que reúne dados sobre a temperatura, a radiação, a velocidade dos ventos e a intensidade de radiação. O equipamento transmite informações on-line para laboratórios da Ufes e da USP, onde quem coordena a pesquisa é a professora Jacyra Soares.

A erosão interfere na manutenção natural da areia monazítica, apontam os pesquisadores. Dois oceanógrafos da USP simularam e analisaram as configurações da areia e as informações obtidas por meio da torre. Eles concluíram que a praia está morrendo por falta de afluxo de areia.

“É como se a praia fosse um coração e algumas das veias estão entupidas. O mar vem e leva a areia; o rio e as correntes do próprio mar trazem. Então, se mantém um equilíbrio dinâmico: a areia entra e sai. Mas, algumas dessas veias foram entupidas e a reposição é lenta: a ala sul, que vem do porto, entupiu uma corrente. Além dela, tem a parte norte, a parte central e o rio”, explica Orlando, que coordena o projeto pela Ufes.

A Ufes recebeu financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Espírito Santo (Fapes) para continuar o estudo e fechou parceria com a Secretaria de Turismo de Guarapari e o Departamento de Edificações e Rodovias (DER) para intercâmbio de dados. A pesquisa busca entender os movimentos de reposição de areia, para indicar os canais de afluxo exatos e, assim, engordar a praia. “Enquanto não podemos dar um resultado preciso, indicamos ao governo e ao DER utilizar a areia monazítica no fundo do mar para a dragagem e engorda artificial para a situação não piorar”, aponta o coordenador.

O projeto da Ufes com a USP também está produzindo um modelo específico de mapas dos ventos para o hemisfério sul, pois os existentes não são específicos para a erosão. Além disso, está desenvolvendo um dispositivo inédito para mapear a areia, coordenado pelo professor Passamai Jr., que será patenteado pela Ufes.

Fornecer esses subsídios para reconstituir a praia, mantendo a areia monazítica, é essencial, aponta Orlando. “Se tudo ocorrer como foi proposto, a praia de Meaípe pode receber selo azul internacional de ecologicamente correta e ser incluída no roteiro das melhores praias do mundo. Isso ajuda a movimentar a economia. Estamos animados”, conclui o pesquisador.


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