Pix ainda causa desconfiança em brasileiro de menor renda - ES360

Pix ainda causa desconfiança em brasileiro de menor renda

Segundo pesquisa da FGV, sistema de pagamentos instantâneos que começa a ser usado no dia 16 ainda desperta dúvidas nas classes C, D e E

Pix. Foto: Divulgação
Pix. Foto: Divulgação

 

Às vésperas de entrar em operação por completo, o Pix – novo sistema de pagamentos e transferências eletrônicas do Banco Central – conta com um desafio pela frente: convencer as classes C, D e E a utilizarem o serviço.

Uma pesquisa da Fundação Getulio Vargas (FGV), divulgada com exclusividade para o Estadão, aponta que esses brasileiros de menor renda são os que menos confiam na ferramenta – e os que mais se queixam da falta de informação sobre como usá-la.

De acordo com os dados, esses brasileiros dizem acreditar que devem utilizar o serviço com menos frequência do que as classes A e B. Embora nove em cada dez deles já tenham ouvido falar do sistema, 47,5% talvez não usem o Pix por falta de informações.

Quando se considera todas as classes, 40% dos brasileiros avaliam que não estão bem informados sobre como vai funcionar o sistema e 28% disseram que não vão usar a nova ferramenta para pagamentos criada pelo Banco Central.

A partir da próxima segunda-feira, 16, os brasileiros já poderão utilizar o novo meio de pagamentos e transferências criado pelo Banco Central. O sistema sairá da fase de testes e estará disponível 24 horas por dia, sete dias por semana, para transações instantâneas. Mais de 700 instituições – entre bancos, financeiras e fintechs – estão autorizadas pelo BC a oferecer o serviço.

“O público das classes A e B tem acesso a sistemas de pagamentos eletrônicos, bem mais do que C, D e E. O BC tem divulgado o Pix pelos cotovelos, mas, muitas vezes, essa informação não chega de forma eficiente a quem não está acostumado a fazer pagamentos eletrônicos”, diz Adrian Cernev, professor do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira, da Fundação Getulio Vargas (FGV), um dos autores do estudo.

“A participação das classes de menor renda no Pix é importante, pois significa a inclusão financeira de pessoas que não têm uma conta bancária, como milhares de vendedores de plataformas virtuais de venda. Foi um grande acerto do Banco Central e que precisa ser bem aproveitado”, diz Cernev.

Na última quarta-feira, 11, o diretor de Organização do Sistema Financeiro e Resolução do Banco Central, João Manoel Pinho de Mello, disse que o sistema de pagamentos também será uma ferramenta para reduzir o volume de papel moeda em circulação no País. O BC estima que cerca de R$ 10 bilhões sejam gastos por ano com empresas de transporte de valores.

O pesquisador da FGV ressalta que a maioria dos serviços financeiros começa a ser ofertada para as classes A e B e só depois vai descendo a pirâmide social. Com o Pix, não. É um serviço que já nasce com a proposta de ser disponível para todos. “O BC precisa fazer uma comunicação direcionada a esse público que tem menos prática de usar o serviço financeiro e digital. O ambiente digital também é um lugar a ser explorado.”

Vendedor ambulante de comida no centro do Rio de Janeiro, André Pacheco, de 42 anos, é um deles. Ele diz que pretende usar a ferramenta de pagamentos, mas que ainda tem muitas dúvidas de como o Pix irá funcionar. “Quero aprender a usar, porque muitos clientes irão perguntar se podem pagar por ele, mas queria mais informações sobre como transferir valores.”

Para Maurício Prado, diretor executivo da consultoria Plano CDE, especializada em pesquisas sobre essas classes, a tendência é que o Pix seja “descoberto” no dia a dia. “É difícil explicar algo tão novo e diferente apenas pela comunicação. Melhor colocar no ar e deixar espalhar, e só então incentivar o uso quando ele estiver implementado”, diz.

Ele completa que os brasileiros das classes C, D e E costumam resistir a usar as ferramentas atuais de transferência bancária, pela sensação de que estão “pagando para usar o próprio dinheiro”. “Mesmo os que têm conta sacam tudo uma vez por mês para evitar custos de TED e DOC. O Pix terá uma grande aceitação, assim que descobrirem que podem deixar seu dinheiro guardado, sem pagar altas taxas por transação.”

A pesquisa também aponta que Nubank (45,3%) e Caixa Econômica Federal (35%) foram as instituições de cadastro mais apontadas pelos usuários que pretendem usar a ferramenta. Entre os que vão usar o Pix, 76% cadastraram a chave pelo CPF e 56% pelo celular. A maioria (69%) já costumava usar o aplicativo do seu banco e 68,6% usam cartão de débito para operações diárias.

Procurado, o BC disse que tem utilizado todos os seus canais de comunicação para levar informação sobre o Pix. “Isso inclui site na internet e as redes sociais, além de ter promovido dezenas de entrevistas com a imprensa e participado de inúmeros eventos, lives e palestras sobre o assunto. Nas próximas semanas essas ações tendem a ser intensificadas por meio de campanhas informativas em diversos meios de comunicação.”

Estadão Conteúdo


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