Países ricos pagarão conta pela falta de vacina para nações pobres, diz estudo - ES360

Países ricos pagarão conta pela falta de vacina para nações pobres, diz estudo

Levantamento encomendado pela Câmara Internacional de Comércio aponta que prejuízo pode chegar a US$ 9 trilhões; análise derruba a tese de que compartilhar imunizantes seria uma forma de caridade

O monopólio do fornecimento de vacinas contra a covid-19 pelas nações ricas ameaça desencadear mais do que uma catástrofe humanitária. A consequente devastação econômica acabará afetando essas nações de maneira talvez mais intensa do que os países em desenvolvimento, segundo estudo encomendado pela Câmara Internacional de Comércio, organização que promove e assessora os negócios em todo o mundo.

No cenário mais dramático – em que as nações ricas estarão completamente vacinadas até o meio do ano e os países pobres em grande parte excluídos –, o estudo aponta que a economia global sofrerá perdas superiores a US$ 9 trilhões (cerca de R$ 49 trilhões), uma soma maior do que o PIB do Japão e da Alemanha juntos. Metade disso seria absorvida por países ricos como Estados Unidos, Canadá e Reino Unido.

No cenário que os pesquisadores definem como mais provável, em que os países em desenvolvimento vacinarão metade das suas populações até o final deste ano, a economia mundial amargará perdas que vão de US$ 1,8 trilhão (R$ 9,8 trilhões) a US$ 3,8 trilhões (R$ 20,7 trilhões). Mais da metade se concentrará nos países ricos.

O estudo conclui que a distribuição equitativa das vacinas será interessante para todos os países, principalmente aqueles que dependem mais do intercâmbio – o levantamento dá fim à tese de que compartilhar as vacinas com os países pobres seria só uma forma de caridade.

“Evidentemente, todas as economias estão conectadas entre si”, disse Selva Demiralp, economista da Koc University em Istambul, que trabalhou no Federal Reserve, em Washington, e uma das autoras do estudo. “Nenhuma economia poderá recuperar-se plenamente se as outras não se recuperarem.”

Demiralp afirmou que a iniciativa filantrópica global conhecida como Acelerador ACT – que visa proporcionar recursos contra a pandemia aos países em desenvolvimento – garantiu que contribuirá com cerca de US$ 11 bilhões (R$ 60 bilhões) para uma meta fixada em US$ 38 bilhões (R$ 207 bilhões). O estudo apresenta a justificativa econômica para fechar este fosso. Os US$ 27 bilhões (R$ 147 bilhões) restantes podem parecer uma soma enorme, mas são uma ninharia se comparados aos custos que o mundo terá de arcar se permitir que a pandemia continue.

A ideia aceita em geral de que a pandemia não respeita fronteiras nem raças nem divisão de classes foi promovida por altos executivos e gurus das empresas. O conceito foi desmentido pela realidade, ou seja, a covid-19 levou à morte e à destruição da sobrevivência econômica dos trabalhadores dos escalões mais baixos, e algumas das minorias raciais, enquanto os altos funcionários puderam trabalhar em suas casas.

No campo do comércio internacional, porém, não há onde se esconder do coronavírus, como conclui o estudo. As cadeias de suprimentos globais continuarão a ser interrompidas se o vírus continuar a se espalhar.

Uma equipe de economistas de Koc University, Harvard e Universidade de Maryland examinou os dados de 35 setores em 65 países e produziu uma ampla análise das consequências da distribuição desigual das vacinas para a economia.

Se nos países em desenvolvimento a mão de obra continuar sem trabalho por causa dos lockdowns exigidos pela pandemia para deter o avanço do vírus, terão menos dinheiro para gastar, reduzindo as vendas para as exportadoras na América do Norte, Europa e Extremo Oriente. As multinacionais dos países avançados também lutarão para garantir peças para as suas máquinas, componentes e commodities.

As conclusões acrescentam um complicador ao pressuposto básico de que a pandemia deixará a economia mundial menos igualitária do que nunca. Embora isto seja real, uma forma impressionante de desigualdade – o acesso às vacinas – poderá suscitar problemas universais.

A iniciativa de fornecer recursos adicionais aos países pobres ganhou um impulso com a posse do presidente Joe Biden. O governo Trump não contribuiu para a causa. O diretor responsável pelo combate à pandemia do governo Biden, Anthony Fauci, anunciou que os Estados Unidos participarão da campanha para que todos tenham as vacinas.

Muitos países pobres entraram na pandemia com ônus da dívida que absorviam a maior parte da receita dos seus governos, limitando os seus gastos destinados à saúde. Os credores particulares recusaram-se a participar de um modesto programa de suspensão da dívida elaborado pelo G-20. O Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional prometeram a maior parte da ajuda, mas não desembolsaram a maior parte dos recursos.

“Nenhuma economia, por grande que seja, estará imune dos efeitos do vírus, a não ser que a pandemia seja dominada em todas as partes do mundo”, afirmou John Denton, secretário-geral da Câmara Internacional de Comércio. “A compra de vacinas para o mundo em desenvolvimento não é um ato de generosidade. É um investimento essencial dos governos, se quiserem recuperar as próprias economias”.


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