Os vinhos da quarentena - uma lição a cada rótulo - ES360

Os vinhos da quarentena – uma lição a cada rótulo

Coragem, vinho provado logo no início da pandemia. Foto: André Andrès

Estou dedicando esse período de isolamento para conhecer novos vinhos. Já foram muitos. Vou começar a postar alguns aqui. Antes um esclarecimento: compro 95% dos meus vinhos. Ganho alguns. Isso sempre será deixado claro aqui, se ganhei, se comprei, quanto paguei. Esse branco abre a seleção por conta de seu nome, sugestivo, e por sua qualidade. Chardonnay produzido na região de Lisboa pela Vidigal Wines. Não passa por madeira. Por isso é um Chardonnay com toques cítricos mais pronunciados. Ótimo vinho. Acho que paguei uns R$ 90 (foi comprado com outras garrafas) no Emporio São Bento, do amigo Simey Santos. Vale provar. Mesmo porque andamos mesmo precisando de coragem…

 

OS VINHOS DA QUARENTENA (02) – Cono Sur Reserva Sauvignon Blanc – A LIÇÃO DE UM SÁBIO

Cono Sur Reserva Sauvignon Blanc: ótimo vinho por ótimo preço. Foto: André Andrès

Não, não se trata de nenhum história perdida no tempo, passada no Oriente. Estava eu procurando um vinho branco quando um doutor na medicina e nos vinhos me recomendou um chileno básico. “Está com um maracujá perfeito”, comentou. Olhei o preço e me espantei: R$ 22. Hoje, seria algo em torno de R$ 35 / R$ 40. O médico tinha possibilidade de tomar vinhos caros e raros, e o fazia com frequência. “Doutor, o vinho está barato”, comentei. E aí veio a lição: “A única vantagem de entender um pouco desse negócio de vinho é conseguir achar algo de qualidade e a bom preço. Compreendeu?” Compreendi. E um dos exemplos atuais dessa lição é a linha Cono Sur, do Valle Central, no Chile. Desde esse Sauvignon Blanc básico, delicioso e pelo qual paguei algo em torno de R$ 50, até os rótulos mais robustos, tudo produzido pela Cono Sur tem qualidade superior ao preço, O Chardonnay Reserva Especial (ainda será comentado aqui), por exemplo, foi provado ao lado de brancos mais caros e ficou ali, ó, empatado em aromas e sabores. Vinho caro tem de ser bom. Vinho bom não precisa ser caro…

 

OS VINHOS DA QUARENTENA (03) – Puklavec Estate Selection Furmint/Pinot Blanc – O DESCONHECIDO

Puklavec Estate Selection: vinho esloveno, feito com a Furmint, casta famosa da Hungria, e a menos conhecida Pinot Blanc. foto: André Andrès

Um desses muitos textos atribuídos a Clarice Lispector, mas jamais escrito por ela, estimula as pessoas a mudarem seus hábitos mais renitentes atéatingir mudanças maiores na vida. “Mude de sabonete, mude de carro, mude de profissão”, vai sugerindo o texto, estimulando a busca pelo novo, como fórmulas para tornar a vida mais interessante, mais rica, mais feliz. Se a busca pelo desconhecido é uma opção de vida, no caso dos vinhos é uma imposição. Perde muito quem insiste nos mesmos rótulos, bebe das mesmas garrafas, prova das mesmas uvas. Vinhos foram feitos para serem descobertos. Erra quem não arrisca e, por exemplo, deixa de tomar um branco esloveno, feito com a mais conhecida das uvas húngaras (a Furmint) mesclada com a menos conhecida Pinot Blanc, casta usada principalmente em vinhos da Alsácia. O Puklavec Estate é fresco, com acidez equilibrada, e vai muito bem com frutos do mar grelhados. Custou uns R$ 70, acho. Bom preço. Vale comprar. No mínimo para você colocar na mesa um vinho produzido na região de Stajerska (“Onde?”, será a pergunta inevitável. E você repetirá, dando uma “aula” no assunto: S t a j e r s k a). Se alguém eventualmente estranhar, você pode recorrer novamente ao falso texto de Clarice Lispector e explicar o motivo de encarar o desconhecido: “A salvação é pelo risco, sem o qual a vida não vale a pena…” Abra o vinho. Compartilhe o desconhecido. E seja fel

 

OS VINHOS DA QUARENTENA (04) – Annie Syrah e Annie Chardonnay/Viognier – LINHAS CONFIÁVEIS

Três dos vinhos produzidos pela chilena VDA: alta qualidade por preços honestos. Foto: André Andrés

Não são poucos os exemplos de linhas de vinhos cuja qualidade é superior ao preço, desde os rótulos básicos até os topos de gama, como são definidos pelos portugueses os vinhos “maiores” produzidos pela vinícola. A citação de Portugal nos remete ao exemplo da Esporão: desde o Pé Tinto (em torno de R$ 35) até o Private Selection (de R$ 350 a R$ 650, conforme safra e local de venda), tudo é muito bom dentro de sua faixa de preço. Não é privilégio de Portugal. A Santa Ema, gloriosa casa chilena, tem uma linha extensa e de enorme qualidade. Mas como estamos abordando vinhos conhecidos e provados pela primeira vez durante a pandemia, falemos da linha Annie. Trata-se de um dos muitos rótulos produzidos pela VDA. Este é o nome adotado há pouco tempo pela Viña de Aguirre, produtora cuja história se perde no tempo do Valle Central, no Chile. A linha básica custa em torno de R$ 55 e a linha Gran Reserva, sinceramente, não lembro quanto me custou (foi comprada com outras garrafas), mas deve ter ficado em torno de R$ 75. Importante é o fato de terem uma qualidade superior ao preço por elas pago. A mescla do vinho branco ficou perfeita, com a Viognier emprestando para a Chardonnay uma acidez capaz de tornar o vinho bem equilibrado. E a Syrah brilha: o vinho de entrada é ótimo e o Gran Reserva é excelente. São vinhos para se ter na adega, certamente. Não necessariamente para “arrasar-quarteirão” em degustações, mas para se provar como é possível beber vinhos honestos, de qualidade sem precisar gastar muito. E mais: como as boas vinícolas cuidam de seus rótulos de entrada com o mesmo cuidado que aqueles dispensados aos seus vinhos mais caros…

 

OS VINHOS DA QUARENTENA (05) – Valmarino Sangiovese – CASO DE FAMÍLIA

Valmarino Sangiovese: demonstração da alta qualidade alcançada pela produção nacional. Foto: André Andrès

A Valmarino é, a seu modo, uma filha da tradicionalíssima casa Salton. Foi criada há mais de duas décadas por Orval Salton, descendente de uma das mais tradicionais famílias produtoras de vinhos do país. A produção da Valmarino não é extensa. Mas é excepcional. Seu espumante Valmarino & Churchill é um dos melhores do país. Mas dá para notar a exuberância de toda a linha a partir de seus vinhos “menores”. Este Sangiovese é excelente para sua faixa de preço (algo em torno de R$ 70). É austero, potente, estruturado. Como as raizes de uma família tradicional. Valmarino é honra e glória da produção de vinhos brasileiros.

 

Há mais de 10 anos escrevo sobre vinhos. Não sou crítico. Sou um repórter. Além do conteúdo da garrafa, me interessa sua história e as histórias existentes em torno dela. Tento trazer para quem me dá o prazer da sua leitura o prazer encontrado nas taças de brancos, tintos e rosés. E acredite: esse prazer é tão inesgotável quanto o tema tratado neste espaço.

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