Óleo ainda marca, um ano depois, a vida de pescadores - ES360

Óleo ainda marca, um ano depois, a vida de pescadores

Petróleo está debaixo da terra, grudado em rochas e petrificado em fragmentos menores que a palma de uma mão

O derramamento de óleo na costa brasileira, um ano atrás, está longe de ser uma tragédia superada. As manchas ainda estão presentes – debaixo da areia e de sedimentos, no fundo de manguezais, grudadas em rochas, diluídas em moléculas pelo mar e concentradas como pequenas “pedras” escuras. O petróleo segue nas praias e na vida de milhares de pessoas.

A falta de respostas para o caso frustra os afetados e deixa o sentimento de que, se ocorrer de novo, tudo se repetirá. Além dos danos à biodiversidade, estudos indicam que o impacto se estenderá por mais de uma década, situação que um cientista definiu como “catastrófica”.

O primeiro sinal da tragédia apareceu em Conde, na Paraíba, em 30 de agosto. O último balanço do Ibama, de março passado, aponta 130 municípios atingidos em 11 Estados – todos os do Nordeste mais Espírito Santo e Rio de Janeiro. Pelos dias e meses seguintes, o óleo chegou a mais de mil quilômetros de costa.

Praias, rios, manguezais, ilhas, estuários, costões rochosos e áreas de proteção foram atingidos. Marisqueiros, pescadores e artesãos mal tiveram tempo de se recuperar dos prejuízos. Em seguida, o coronavírus agravou as dificuldades. O dinheiro aparece quase exclusivamente na forma atividades esparsas e doações.

Uma das vítimas disso tudo é Helena Ivalde, de 33 anos, a Leninha. De uma família de marisqueiras, ela teve de sair de casa em uma madrugada de outubro para impedir que o óleo entrasse no manguezal. “Botei a mão no óleo mesmo. Ainda bem que não afetou o mangue daqui”, lembra. A situação quase paralisou a compra de pescado na região, em Ipojuca, município turístico de Pernambuco conhecido por Porto de Galinhas. As contas ficaram ainda mais apertadas para Leninha, que aluga uma casinha de um quarto, dividida com os quatro filhos. “Não está fácil não”, lamenta.

Atingidos

Estimativas apontam que 350 mil a 500 mil pescadores foram afetados no Nordeste. A Fundação Joaquim Nabuco ouviu 4 mil deles, dos quais 67,5% tiveram queda na renda e 59,5% vivem exclusivamente da pesca artesanal. Foi o caso do portuária desempregado Vandecio de Santana, de 37 anos, que atuava como pescador e instrutor de passeios em Cabo de Santo Agostinho. Em 2019, Del, como era conhecido, viralizou na internet com um desabafo: “Parece que Deus colocou a mão debaixo do tapete, mostrando todas sujeiras que tem no mundo. Ou a gente cuida, ou a gente vai se lascar.”

Del critica a falta de assistência aos que ajudaram a remover o petróleo – alguns dos quais tiveram náuseas, alergia e dor de cabeça. “Não sei o que pode acontecer com o meu corpo daqui a 5 anos, 10 anos”, destaca. “Não pode ficar essa dúvida. Isso aí é uma covardia com a própria saúde humana.”

Diante da falta de ações para resolver o problema, ele planeja montar um laboratório de forma autodidata. “O litoral é visto como se fosse o lugar para molhar a cara, dar um mergulho e tchau. Mas o oceano não é só praia. Sem natureza, a nação não sobrevive, independentemente de ter dinheiro ou não”.

Com a pandemia, ele vê sua comunidade abatida. “Os problemas vieram em bola de neve”, descreve. “Estão deixando o povo com depressão.”

Espalhado

O petróleo ainda é visto em outros Estados. Moradora de Maraú, litoral baiano, a instrutora de mergulho Stella Furlan, 35 anos, tem três lixeiras diferentes em casa: para orgânicos, recicláveis e petróleo. Na praia, ela encontra sempre a substância petrificada. Se está de bicicleta ou caminhando, leva para casa. Na dúvida, enterra devidamente acondicionado no próprio quintal. “Morreu a história. Mas o óleo ainda chega.”

Em 2019, alguns governos chegaram a destinar o material para uso como combustível de fornos industriais. Outros fizeram descarte incorreto em lixões e aterros, deixando-o em contato com o solo e potencializando as chances de contaminação ambiental.

Além do lixo, Stella também se preocupa com a fauna. A poucos dias, mergulhou pela primeira vez no ano em uma área de corais. “Os peixinhos recifais, os sargentinhos, as donzelinhas, as tesourinhas, estão doentes. Os corais, mais ainda.” Advertida para não comentar a situação nas redes sociais, ela reage: “Eu preciso do mar para viver. Se o mar não estiver legal, o que vou fazer?”

Um ano depois da chegada das manchas, outras perguntas continuam sem resposta clara. Uma das lideranças na tarefa de 2019, o gestor ambiental Sidney Leite, de 27 anos, coordenador do Salve Maracaípe, põe o dedo na ferida. A falta de coordenação que se vê hoje na pandemia, ressalta, já estava clara na chegada das manchas. “É um cenário de angústia e incerteza. Parece que aconteceu há uma semana, um dia atrás.” Segundo ele, não se sabe a origem, o local, a quantidade, não se tem uma proporção do quanto foi decantado ou está impregnado em ecossistemas”. “Que investigação é essa que não tem ninguém responsabilizado? Não se aprendeu com os erros.”

Uma CPI do Óleo, instaurada no Congresso Nacional, em Brasília, está com reuniões suspensas desde março. O Estadão procurou o Ibama, o Ministério do Meio Ambiente, o Ministério do Turismo, o CNPq e a Marinha do Brasil (MB) para ouvir sobre o tema, mas apenas a Marinha respondeu. Em nota, afirma que a investigação continua “de forma ininterrupta” e ressalta se tratar de um caso “complexo”, para o qual trabalha de forma cooperada com a Polícia Federal (PF).

Estadão Conteúdo


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