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O que dizem as últimas pesquisas dos EUA

Sim, todos sabemos, as pesquisas erraram feio na última eleição norte-americana e não conseguiram captar o surpreendente movimento de consagração de Donald Trump pelas urnas. Aliás, a vitória também surpreendeu o vitorioso: o livro “Fogo e Fúria”, do jornalista Michael Wolf, que relata a inesperada reação do presidente ao ver na TV o resultado da eleição. Segundo Wolf, Trump ficou, primeiro, em choque, e depois, horrorizado. Enquanto isso, sua mulher, Melania, teria caído em prantos — mas de desespero, e não de alegria. O objetivo da família era ganhar visibilidade para cada um de seus negócios, não vencer a eleição. De qualquer forma, a credibilidade dos institutos de pesquisa e das leituras dos analistas foi posta em xeque. E justamente por isso houve uma série de mudanças nos critérios de produção, apuração e avaliação das pesquisas nos EUA. Muitas delas passaram a ter a coordenação de um representante de cada partido, Democrata e Republicano, na organização dos levantamentos de opinião. E os trabalhos mais qualificados passam pela inscrição em entidades como a Iniciativa de Transparência da Associação Americana para Pesquisa de Opinião Pública ou o Centro Roper para Pesquisa de Opinião Pública. Enfim, imprensa e pesquisadores tentaram melhorar, e muito, nos últimos quatro anos.

Os aglutinadores

Dito isso, vamos aos números de dois dos principais sites de análise de pesquisa dos EUA, o famoso FiveThirtyEight e o respeitado 270ToWin (270 é o número de delegados necessários para o candidato vencer a disputa pela Casa Branca, na terça-feira).

Um spoiler, antes de vermos os dados: ambos apontam amplo favoritismo de Joe Biden, mas alertam sobre a possibilidade de uma surpresa ocorrer.

Centenas de cálculos diários

O FiveThirtyEight tem um sistema complexo e, segundo analistas, com grande histórico de acertos. Eles fazem diariamente centenas de simulações de resultados, considerando pesquisas divulgadas em cada estado. É, ao mesmo tempo, um centralizador e um redistribuidor dos dados conforme o peso de cada estado. Como se sabe, nos EUA, cada unidade da federação tem um número próprio de delegados, enquanto a Califórnia, por exemplo, tem 55, o Novo México tem cinco. O site resume neste quadro suas muitas simulações:

Deu para entender? A cada 100 simulações feitas pelo site, Joe Biden ganha em 89 e Trump em 11. Isso significa jogo definido? Não. Note a raposinha ao lado do quadro. Sua anotação traz o seguinte alerta: “Não despreze o azarão! Vitórias inesperadas são surpreendentes, mas não impossíveis.” Em um texto analítico, os responsáveis pelo site são ainda mais precavidos: “(…) o presidente Trump precisa de um grande erro de votação a seu favor se quiser vencer. Trump tem, no entanto, chance de vencer a eleição, de acordo com nossa previsão – um pouco pior do que as chances de dar “um” em um dado de seis lados e um pouco melhor do que as chances de que esteja chovendo no centro de Los Angeles. E lembre-se, chove lá. (Los Angeles fica numa região bastante seca, mas tem cerca de 36 dias chuvosos por ano, ou cerca de um dia de chuva em cada 10 dias.)

O “estado-pêndulo”

A boa notícia para Biden é: nesta quinta-feira, dia 29, ele tem o melhor resultado da pesquisa feita pelo site desde o início das pesquisas. Contribui muito para isso o bom resultado alcançado na última pesquisa em Wisconsin, um dos “swing states” (estados-pêndulo), os mais decisivos da campanha. Lá, Biden alcançou 17 pontos à frente de Trump. Estado-pêndulo (“swing state) é aquele sobre o qual não há certeza histórica do resultado, em um ano vota nos democratas, noutro, nos republicanos. São poucos. A maioria dos estados tem resultado previsível, ou seja, sempre votam em republicanos ou sempre votam em democratas.

Em resumo: segundo o FiveThirtyEight, Biden é amplamente favorito. Mas um resultado favorável a Trump em alguns dos “swing states” pode reverter o quadro. Difícil, mas não impossível.

Os delegados

O quadro do 270ToWin vai mais ou menos no mesmo caminho. Veja abaixo:

O site, também baseado nas pesquisas, faz um cálculo de quantos delegados cada candidato já conquistou, conforme o peso de cada estado. Veja neste mapa alguns dos “swing states”. Eles estão em marrom, ou seja não são republicanos (em vermelho) nem democratas (azul).

Segundo esse mapa, Biden tem garantidos 290 delegados, 20 acima do necessário. E Trump, 163. No meio, um grupo de 85 delegados indefinidos. Mesmo se Trump conquistar todos os votos dos indecisos, chegaria a 248 votos, bem abaixo da marca dos 270 votos de consagração do vencedor.

A possibilidade de mudança

Note: alguns estados aparecem com um tom de azul ou de vermelho mais leve. Aí pode estar a possibilidade de virada de Trump. Porque nesses estados, a predominância democrata (azul) ou republicana (vermelha) não está totalmente consolidada. Ou seja, existe uma possibilidade de mudança para um dos lados. O site é também cuidadoso: ele coloca dia, hora e minuto da última atualização.

Tudo muito complicado? Um pouco. Existem outros fatores, como o voto facultativo, o enorme volume de cédulas enviadas pelo correio (mais de 70 milhões, até esse momento) etc. Mas o recado final é: hoje, quinta-feira, dia 29, 7h28 da manhã, Biden é favorito para vencer. Se as urnas vão confirmar essa previsão, isso só o tempo e a história dirão…

Antonio Carlos tem 32 anos de jornalismo. E um tempo bem maior no acompanhamento das notícias. Já viu muitos acontecimentos espantosos. Mas sempre se sente surpreendido por novos fatos, porque o inesperado é a maior qualidade das coberturas jornalísticas. E também da vida...

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Comentários:

  • Otima análise! Torço por Biden, e meu otimismo me diz que ele vai ganhar. Mas que hay bruxas, las hay!

  • Muito boa fundamentação técnica e analise, Antônio Carlos.

  • Opa! Obrigado, Fernando e Betty. Vindo de vocês, o elogio é multiplicado!


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