O novo bolsolulismo e a encruzilhada de Paulo Guedes - ES360

O novo bolsolulismo e a encruzilhada de Paulo Guedes

A expressão bolsolulismo surgiu para identificar os pontos de união entre os seguidores de Jair Bolsonaro e Lula. Esses pontos vão desde o tratamento mítico dado aos dois pelos seus apoiadores até às frágeis justificativas diante da descoberta de operações financeiras nas quais seus nomes aparecem: para os lulistas, “não há provas” nos processos; para os bolsonaristas, além de não haver provas nas estranhas movimentações com dinheiro vivo e nem crimes na amizade com milicianos, os valores citados “são fichinha” diante dos bilhões do escândalo do petrolão. No final das contas, a adoração cega uniu os extremos. Mas não parou por aí…

O acidente

Um novo componente aproximou ainda mais esses extremos. E foi, de certa forma, por um acidente. Bolsonaro e, principalmente, Paulo Guedes, resistiam em forjar um socorro para a população mais necessitada diante da pandemia. Soltaram um projeto de ajuda emergencial de R$ 200, de duração limitada. O Congresso forçou a barra e elevou o valor. Bolsonaro acabou fechando a conta em R$ 600. E… fez-se a luz! O projeto começou a ser colocado em prática justamente no momento de maior desgaste do governo diante de seu eleitorado. Sergio Moro acabara de sair do governo atirando e levando com ele o apoio de parte dos eleitores do presidente, os chamados lavajatistas. Por um momento, a popularidade de Bolsonaro caiu a níveis nunca antes experimentados, perto de 23%. Logo depois, no entanto, ela voltou a subir, empurrada por novos apoiadores do presidente, os beneficiados pelo auxílio emergencial, o mesmo antes negligenciado pelo governo e, principalmente, por Paulo Guedes.

A conta

Muitos bolsonaristas pensam ser conservadores, mas são apenas atrasados. Margaret Thatcher era conservadora, Abraham Weintraub é atrasado. E o presidente nunca foi liberal na economia. Diante disso, a definição de seu governo como “conservador-liberal” é imprecisa, para dizer o mínimo. Bolsonaro é popular por conta de seus modos, e está flertando com o assistencialismo por conta do destino. Aparentemente, gostou do namoro. E Paulo Guedes, a voz liberal e defensora do estado mínimo, como fica nessa história?

A encruzilhada

A pergunta talvez fosse melhor se apresentada de outra forma: Paulo Guedes fica nessa história? Como ministro, Guedes tem sido um excelente palestrante. Seus diagnósticos impressionam. Seu discurso de posse, quando falou de improviso por uma hora, foi brilhante. Pode-se discordar das suas ideias, mas não se pode acusá-lo de não tê-las,  algo muito comum em se tratando de ministros dos mais variados governos. Mas a teoria na prática é outra… Guedes conseguiu a aprovação da reforma da Previdência já engatilhada pelo governo Temer, avançou em questões pontuais, aqui e ali e… só. A demora no programa de privatizações e da reforma administrativa levaram à saída, nesta terça-feira, dia 11, dos secretários especiais de Desestatização, Salim Mattar, e de Desburocratização, Gestão e Governo Digital, Paulo Uebel. “Foi uma debandada”, definiu o ministro. Não para por aí…

A encruzilhada

Da equipe original montada por Guedes, sete assessores e secretários já pediram para sair. A água está batendo no nariz do ministro, porque ele terá de decidir se mantém as ideias de estado menor, tão bem defendidas em suas palestras, ou se “arruma um dinheirinho”, como pediu Flávio Bolsonaro ao defender a manutenção e ampliação de programas de assistência social, aqueles garantidores de um novo nicho de popularidade de Bolsonaro. Guedes está entre a cruz do liberalismo econômico e a espada do assistencialismo sócio-eleitoral. Terá de decidir qual caminho seguir. O presidente já escolheu…

O candidato

Bolsonaro flertou com o povo necessitado do Nordeste e gostou. Viu ali a compensação eleitoral, com vantagens, das perdas ocorridas com fuga de parte da classe média, por conta da saída de Moro e de suas decisões diante da pandemia. As pesquisas mais recentes o colocam no patamar confortável de 30% a 35% de  aprovação, apesar da paradeira na economia e dos 100 mil mortos pela covid. Para o entorno do presidente, entre o rigor fiscal do liberalismo e a reeleição encaminhada pelo assistenciaismo, não há dúvidas na escolha. Pelo menos essa é a posição até o momento, vocalizada por Flávio Bolsonaro. Falta combinar com Guedes…

O impeachment

A palavra, tão usada por opositores, foi lançada nesta terça-feira pelo ministro da Economia: “Os conselheiros do presidente que estão aconselhando a pular a cerca e furar teto vão levar o presidente para uma zona sombria, uma zona de impeachment, de irresponsabilidade fiscal.” Pode ser um alerta sincero. Ou pode ser uma justificativa do ministro diante do caminho por ele escolhido diante da encruzilhada na qual se encontra. As próximas semanas darão a resposta.

E a BR 262, hein?

O edital de concessão da rodovia não deixa dúvidas: teremos a repetição da lentidão das obras na BR 101. A primeira etapa prevê a duplicação de parcos 10 quilômetros por ano. Serão mais de 20 anos até a obra ser concluída.

Exagero na Saúde

A Secretaria de Educação usou boa parte do tempo da entrevista coletiva dada na terça-feira para falar de possíveis casos de reinfecção de covid no estado. Todos foram descartados. Até agora, só existem dois casos comprovados de reinfecção no planeta. O assunto merecia menor atenção tanto na coletiva quanto na maneira como foi tratada por alguns sites.

A imagem (1)


Joe Biden e a sua candidata a vice, a senadora Kamal Harris. A indicação da vice na chapa democrata, anunciada nessa terça-feira, vinha sendo aguardada com enorme expectativa. Por conta da idade de Biden, 77 anos, o mais idoso a disputar a Casa Branca. Se o candidato democrata vencer a eleição, dificilmente buscará a reeleição. E o nome de sua vice seria, naturalmente, o mais forte dentro do Partido Democrata. Os EUA estariam perto, daqui a quatro anos, a ter uma mulher negra na presidência…

Imagem (2)

Vídeo da a versão um tanto fantasiosa para a vacina russa contra a covid, anunciada por Vladimir Putin. No vídeo, a Terra é tomada pelo coronavírus e, depois, é salva pela vacina, a Sputnik 5. Como se sabe, a vacina ganhou o mesmo nome do primeiro satélite a orbitar a Terra. Ele também foi produzido pelos russos…

Antonio Carlos tem 32 anos de jornalismo. E um tempo bem maior no acompanhamento das notícias. Já viu muitos acontecimentos espantosos. Mas sempre se sente surpreendido por novos fatos, porque o inesperado é a maior qualidade das coberturas jornalísticas. E também da vida...

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do ES360.


Deixe um comentário:

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Mais Colunas