O branco da El Principal - ES360

O branco da El Principal

Kiñe é feito com a uva Verdejo, típica da região espanhola e não encontrada por aqui. Na língua mapudungun, dos índios Mapuche, Kiñe significa “único”

Gonzalo Guzmán em Vitória: o enólogo aprovou a harmonização com a moqueca. Foto: Chico Guedes
Gonzalo Guzmán em Vitória: o enólogo aprovou a harmonização com a moqueca. Foto: Chico Guedes

Montado no enorme sucesso dos vinhos elaborados por ele desde 2005, o chileno Gonzalo Guzmán tinha tudo para se prender apenas ao aprimoramento de seus rótulos, imensamente consumidos por aqui. Afinal, o Calicanto, o Memórias e o El Principal são recebidos em qualquer mesa com uma mistura de prazer e admiração. Mas enólogos são figuras inquietas…

Ainda bem! Porque essa inquietude levou Guzmán a revisitar seu passado. Mais especificamente o período trabalhado na região de Rueda, Espanha (ele passou também por outros países, como a Nova Zelândia, antes de assumir os trabalhos na Viña El Principal, dando continuidade ao trabalho iniciado por Jean Paul Valette). E as memórias de Guzmán o fizeram insistir na produção de um branco incomum, feito apenas com a Verdejo, uva típica da região espanhola e não encontrada por aqui.

A insistência deu trabalho. Por mais de uma vez, a importação da muda da casta parou nas autoridades de vigilância agrícola do Chile. Por conta de não cumprimento de um ou outro detalhe burocrático, o graveto era simplesmente queimado ao chegar em Santiago. “E lá ia eu atrás de nova muda”, contou Guzmán, entre garfadas e elogios à moqueca capixaba, provada dias atrás em Vitória. Em suas viagens também se aconselhava com Patrick Léon, ex-Mouton Rothschild, cuja morte recente foi lamentada à mesa.

A primeira safra do novo branco teve apenas uma barrica de 300 litros. O rótulo desembarcou efetivamente ao mercado há cinco anos. Um dos lotes chegou a ser vendido no Brasil. E agora virou uma aposta da vinícola e da Decanter, a importadora da El Principal no país. “É perfeito para esse clima. Perfeito para acompanhar a moqueca!”, entusiasmou-se o autor do Kiñe, já provando pela segunda vez o prato. Ele está certo. Apesar de 80% do vinho passar 12 meses em barricas francesas, o branco mantém uma ótima acidez. É persistente na boca. E gastronômico, fica melhor quando acompanha um prato.

Não é um vinho barato. Deve custar algo em torno de R$ 350. Mas ele vai além de um branco comum. Trata-se do único vinho feito com a Verdejo nas Américas. Em outras palavras, ao provar uma taça de Kiñe prova-se de uma casta só encontrada em um recanto do Vale do Maipo. Essa exclusividade, aliás, é sinalizada logo no rótulo: na língua mapudungun, dos índios Mapuche Kiñe significa “único”. Único como a uva, único como a história do branco produzido em uma vinícola cujo sucesso sempre foi baseado em seus grandes vinhos tintos…

Há mais de 10 anos escrevo sobre vinhos. Não sou crítico. Sou um repórter. Além do conteúdo da garrafa, me interessa sua história e as histórias existentes em torno dela. Tento trazer para quem me dá o prazer da sua leitura o prazer encontrado nas taças de brancos, tintos e rosés. E acredite: esse prazer é tão inesgotável quanto o tema tratado neste espaço.

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