Manifesto de psiquiatras contra associação alerta para 'revogaço' da saúde mental - ES360

Manifesto de psiquiatras contra associação alerta para ‘revogaço’ da saúde mental

No manifesto, os profissionais atribuem à Associação Brasileira de Psiquiatria a defesa de 'interesses corporativos e mercadológicos'

As discussões em curso no Ministério da Saúde para revisar uma centena de portarias que estruturam a política de saúde mental no país evidenciaram um ‘racha’ entre a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e os profissionais da categoria. Mais de 900 psiquiatras se uniram para fazer frente à entidade representativa da classe e às diretrizes defendidas pela ABP. Isso porque a associação participa do grupo de trabalho instituído pela pasta para promover uma reforma no modelo de atendimento atual.

No manifesto, os profissionais atribuem à Associação Brasileira de Psiquiatria a defesa de ‘interesses corporativos e mercadológicos’ e criticam o documento Diretrizes para um modelo de atenção integral em saúde mental no Brasil divulgado pela entidade.

“É de longa data o distanciamento dessa Associação dos interesses em um cuidado amplo e democrático para a população. O documento reeditado atualmente, mas há pelo menos seis anos divulgado para seus membros, só teve espaço pelo momento de extrema vulnerabilidade provocada pela pandemia e pela ausência de direcionamento técnico no Ministério da Saúde”, diz um trecho do manifesto.

A ABP é a única instituição habilitada a fazer a certificação e conferir o título de especialista em psiquiatria. Na ponta, profissionais dissidentes veem a associação como uma ‘indústria de produção de títulos’ que monopoliza as discussões sobre saúde mental em nome de um ‘projeto político’ benevolente a escritórios particulares, aos convênios e à medicalização.

“Alegando falar em nome da ciência, a ABP o faz de forma tão precária que mal disfarça os interesses corporativos e mercadológicos que a movem. Ao mesmo tempo, coloca-se em posição insustentável por seu autoritarismo: atribui- se o direito de formular por si só toda uma política pública de saúde mental, desdenhando o diálogo com os múltiplos segmentos envolvidos, que exigem e merecem voto e voz”, registra o manifesto.

Profissionais ouvidos pela reportagem temem que as discussões em curso no Ministério da Saúde desemboquem em medidas para enfraquecer a Rede de Atenção Psicossocial (RAPs) do Sistema Único de Saúde (SUS), que segue um modelo integrado, territorializado e flexível desde a atenção básica. Nessa mesma linha, em julho, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) decidiu regulamentar as chamadas comunidades terapêuticas (CTFs), entidades que atuam junto a usuários de drogas em situação de tratamento e são, em sua maioria, ligadas a igrejas e intransigentes na defesa da abstinência – rechaçando a perspectiva da redução de danos.

O Ministério da Saúde informou que as portarias que estruturam a política de saúde mental estão sob escrutínio de um grupo de trabalho composto, além da APB, por representantes do Ministério da Cidadania, do Conselho Federal de Medicina (CFM), do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) e do Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde (Conasems). A pasta alega que as regras estão ‘obsoletas’.

Já a Associação Brasileira de Psiquiatria diz que o modelo de assistência em saúde mensal precisa ser ‘adaptado à realidade’ e que os ambulatórios especializados, excluídos da reforma aprovada em 2001 por ‘questões ideológicas’, nas palavras da entidade, precisam ser retomados.

“A ABP defende a nova Política Nacional de Saúde Mental, votada na Comissão Intergestores Tripartite (CIT) do SUS, com representação dos governos federal, estaduais e municipais, publicada em dezembro de 2017 por meio da Resolução CIT Nº 32/201 e da Portaria MS Nº 3.588/2017. Vale ressaltar que tais mudanças, que completam três anos agora, precisam ser amplamente implementadas para que a desassistência aos pacientes com transtornos mentais, fruto de ideologias irresponsáveis, seja finalizada em nosso país”, diz um trecho da manifestação publicada no site da associação.

Estadão Conteúdo


Deixe um comentário:

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Mais notícias
Dia a dia

Terminal de Itaparica volta a funcionar na segunda-feira

Dia a dia

Primeiro trecho das obras do Portal do Príncipe é aberto em Vitória

Mundo

Biden toma posse e inicia guinada contra legado de Trump

Dia a dia

Espírito Santo não corre risco de desabastecimento de oxigênio, garante a Sesa