Lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive nas cervejarias - ES360

Lugar de mulher é onde ela quiser, inclusive nas cervejarias

As mulheres estão cada vez mais presentes no mercado da cerveja, seja na produção, gestão ou nos bares e balcões descobrindo novos sabores e estilos. Essa conquista de espaço em várias áreas no mercado tem crescido com o aumento e valorização das cervejas artesanais no Brasil, mas os homens ainda são maioria liderando a produção.

Dados do primeiro Censo das Cervejarias Independentes Brasileiras, divulgado no ano passado, apontam que mulheres são 11% das pessoas à frente das cervejarias independentes no país. Nesta semana em que se comemora o dia internacional pela luta a igualdade feminina, no dia 8 de março, conversamos com algumas mulheres que escolheram a cerveja como profissão. Elas atuam em diversas áreas do mercado, da produção nas panelas à gestão, passando pela fabricação de equipamentos ou atuação como sommeliers.

Carol faz as receitas da própria cervejaria. Foto: Divulgação
Carol faz as receitas da própria cervejaria. Foto: Divulgação

Uma delas é Carol Pizetta, que optou por comandar as panelas e criar as receitas na sua cervejaria, a Serpentário Brewery, que fica em Vitória. A vontade de abrir um negócio aliada a paixão por cerveja artesanal e gastronomia levou a administradora a estudar. “Queria abrir um negócio e meu pai falou para eu estudar que ele investiria em mim. Fiz vários cursos de cerveja, comecei a produzir até que resolvi comprar a cervejaria só para mim”, conta.

Na opinião dela o crescimento no número de mulheres no meio cervejeiro está acontecendo porque é um ramo muito amplo. “Não precisa só saber fazer cerveja, pode ser sommelier, por exemplo, e há várias mulheres incríveis nessa área. É um ramo que as mulheres são melhores que os homens porque elas têm olfato e paladar mais apurado”, diz Carol.

Sophia faz cerveja em casa e tem empresa de equipamentos de cerveja. Foto: Divulgação
Sophia faz cerveja em casa e tem empresa de equipamentos de cerveja. Foto: Divulgação

Sophia Gracelli também faz cerveja, mas caseira, e tem uma empresa de equipamentos para cervejarias com o marido na Serra. Começou a fazer suas receitas em 2016. No ano seguinte entrou para a Associação de Cervejeiros Caseiros e abriu a empresa com o marido, a Ekipo. Nesse período, acompanhou de perto o crescimento da produção de cervejas artesanais, principalmente com a participação de mulheres. Ela lembra, inclusive, de concursos já realizados voltados só para receitas feitas por mulheres. “Víamos poucas mulheres fazendo cerveja em casa. O número está crescendo, mas ainda é inferior ao de homens”, diz.

Pri Colares é sommelier. Foto: Divulgação
Pri Colares é sommelier. Foto: Divulgação

Já Priscilla Colares, de Belo Horizonte, é sommelier em cervejas, professora do Instituto da Cerveja e também jurada de concursos cervejeiros. Há 7 anos exclusivamente no mercado da cerveja artesanal, diz que começou buscando muito conhecimento. Para ela o crescimento da cerveja artesanal trouxe uma nova forma de enxergar o consumo de bebida, o que colaborou para a mudança principalmente na publicidade de cerveja. “Antes completamente estereotipada com a mulher sendo usada como atrativo sexual. Demorou, mas muitas marcas conseguiram enxergar que somos mais de 50% da população e com poder de consumo e de decisão e que a publicidade deveria ser mais inclusiva”, defende.

Mari atua há sete anos na gestão de uma cervejaria. Foto: Divulgação
Mari atua há sete anos na gestão de uma cervejaria. Foto: Divulgação

Outro exemplo de mulher no mercado da cerveja é Mariana Dias Buaiz, que é gestora da cervejaria Barba Ruiva, em Domingos Martins, ao lado do marido Daniel Buaiz. No mercado há sete anos, ela conta que sempre acompanhou todo o processo, desde a produção até a venda das cervejas. Em todos os eventos cervejeiros que participou com o marido, conta que nunca se sentiu excluída por ser mulher. “Pelo contrário, sempre estive com várias mulheres”, diz. Ela acha que o aumento da participação delas no ramo é natural do crescimento do mercado.

Desafios

Quando questionadas sobre os principais desafios para as mulheres conquistarem mais igualdade no mercado, elas lembram do machismo e relatam terem sofrido algum tratamento diferenciado na trajetória da carreira por serem mulheres, mesmo não se importando com isso.

Carol diz que quando trabalhava com o pai, ainda no começo da cervejaria, as pessoas costumavam se dirigir mais a ele na hora de falar sobre cerveja. “Isso nunca me incomodou porque eu sabia do meu potencial. Era eu que fazia as receitas e sabia mexer no equipamento e meu pai sempre passava a bola para mim. Sempre olharam muito para meu pai porque ele é barbudo, mais velho e tem cara de cerveja artesanal e eu não tinha esse perfil. Ninguém acreditava que a mulher bonitinha e arrumadinha era quem colocava a mão na massa”, lembra.

Já Priscila conta que passou em algumas situações pela experiência de ter tratamento equivocado ou com limitações por pessoas acreditarem que mulheres não poderiam executar tão função ou não gostar de determinada cerveja porque não era “para o paladar feminino”.

A superação do machismo é o principal desafio a ser enfrentado na opinião de Sophia. “O dia a dia dentro de uma cervejeira é bem pesado, tem que levantar peso, é extenuante. E tem muito homem que acha que mulher não está preparada para isso, mas mulher aguenta igual homem. O primeiro passo é quebrar o paradigma de que as mulheres não conseguem fazer determinadas coisas, principalmente relacionadas à força”, diz.

A presença de mais mulheres à frente das brassagens é um dos desafios a serem enfrentados na opinião de Mari Buaiz. “Ainda sinto falta de mais mestres cervejeiras para coordenar a produção”, finaliza.

Mulheres na história da cerveja

A existência de mulheres à frente do mercado cervejeiro não é um movimento novo, já que elas tiveram papel essencial na história da cerveja. Ao longo da história antiga e na idade média a produção de cervejas fazia parte das atividades domésticas e sendo responsabilidade das mulheres. Isso mudou à medida que a produção foi crescendo e virando atividade comercial, com o surgimento de grandes empresas e da produção em larga escala, passando a ser um mercado comandado por homens.

Leticia Orlandi é jornalista e entusiasta de cervejas artesanais. Escreve sobre histórias e sabores por trás de cada copo.

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