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Governo fecha semana exemplar na geração de crises

Responda rápido: qual ato da oposição (oposição mesmo: PT, PSOL etc.) atrapalhou efetivamente o governo de Jair Bolsonaro? Quem é, hoje, o líder da oposição no país? Qual crise foi criada a partir de um ato externo ao governo, como, por exemplo, ocorreu com a greve dos caminhoneiros durante o governo Temer? A oposição no Brasil, na prática, não existe. No entanto, o país vive aos sobressaltos, de crise em crise. Por quê? Porque decisões e afirmações geradoras de crise estão instaladas dentro do governo. E muitas vezes essas crises são usadas como chibata, usada contra inimigos e amigos.

O país amanhece nesta sexta-feira, dia 24, na expectativa da demissão do ministro da Justiça, Sérgio Moro, diante da decisão do presidente de demitir o diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Valeixo. Moro não tem muitas opções: ou sai do cargo ou permanece nele, desmoralizado perante o país e perante seus subordinados. Não vai adiantar o ex-juiz da Lava Jato vir com seu discurso de “normalidade de uma decisão tomada em comum acordo com o presidente”, usado em outras ocasiões. Sabe-se da imposição da vontade de Bolsonaro, interessado em evitar apurações aprofundadas sobre a ligação de seus filhos com milicianos e também em afastar as investigações sobre a milícia digital, espalhadora de fake news e apoiadora do presidente.

A decisão do presidente sobre a PF fecha uma semana exemplar em termos de geração interna de crises. Na última quinta-feira, dia 16, Bolsonaro esquentava de vez o óleo da fervura e fritava Luiz Henrique Mandetta, defenestrado do Ministério da Saúde. No mesmo dia, fez o mais virulento ataque desferido até agora contra Rodrigo Maia. No domingo, foi para a rua numa manifestação a favor da intervenção militar e contra STF e o Congresso. Na terça, surgiram as informações sobre um plano de recuperação econômica elaborado sem a participação da equipe de Paulo Guedes. Ele foi anunciado por um general, sem a presença de Guedes, na quarta-feira. Na quinta, surgiu a crise com Sérgio Moro, por conta do diretor da PF, hoje demitido. Em paralelo, tivemos o ministro das Relações Exteriores publicando um texto ligando comunismo, globalismo e a Organização Mundial da Saúde. Até este momento, o ministro da Educação não entrou em cena, mas ainda há tempo…

Note: em nenhum dos casos acima é possível enxergar uma “leitura dos fatos”, algum “viés ideológico” em sua narrativa. São acontecimentos acompanhados por todos nós, todos eles brotados das entranhas do governo. E cada um, a seu modo, criou um ruído, um barulho ou uma crise gritante, conforme sua dimensão. E em nenhum momento houve participação de figuras externas ao governo ou a publicação de “revelações” por parte da imprensa. Os atos, imagens e declarações falam por si. E o cenário surgido a partir deles não é bonito, não.

Bolsonaro tem de aprender urgentemente uma lição básica de Brasília: as crises precisam entrar no Palácio do Planalto de um tamanho e sair dele bem menores. Hoje, o governo é um gerador diário de confusões, com todas as consequências econômicas, sociais e políticas resultantes disso. Ou o presidente entende isso e revê seu comportamento à frente da presidência da República (o primeiro cargo de gestão de sua vida, é sempre bom lembrar) ou corre o risco de aprender uma outra lição, bem mais grave e dolorida: quando usada como chibata, a crise pode crescer, tornar-se incontrolável e se comportar como a volta do cipó de aroeira no lombo de quem mandou dar.

Em outras palavras, o governo pode sair destruído dessas crises todas. E nem será preciso oposição para isso…

Antonio Carlos tem 32 anos de jornalismo. E um tempo bem maior no acompanhamento dos fatos. Já viu e acompanhou muitos acontecimentos. Mas sempre é surpreendido por novos fatos, porque o inesperado é a maior qualidade das coberturas jornalísticas. E também da vida...

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