Gil, 78 anos, uma obra de muitas fases e faces - ES360

Gil, 78 anos, uma obra de muitas fases e faces

Gilberto Gil ao lado de Caetano no exílio em Londres, na época da ditadura militar

Poucos cantores/compositores brasileiros tiveram tantas fases quanto Gilberto Passos Gil Moreira, hoje completando grandiosos e bem vividos 78 anos, muito bem comemorados com um vídeo do qual participam grandes artistas nacionais. Gil nasceu tropicalista para o mundo da música. Seu canto ia desde as regionalíssimas “Procissão” e “Louvação” até o poema cantado “Lunik 9”, sobre as aventuras espaciais do homem. A veia tropicalista se aprofundou com o disco-manifesto “Panis et Circensis”, gravado com Caetano, Mutantes, Nara Leão, Gal Costa, muita gente boa, organizada sob os arranjos espetaculares de Rogério Duprat. Era um Brasil encontrando outros Brasis, para revelar parte da alma musical e cultural do país.

A ditadura radicalizou, Gil se foi para o exílio. Viajou. Aliás, experimentou viagens, mentais e espirituais. E suas músicas ganharam ares lisérgicos, com algumas letras impenetráveis, parcialmente citadas em “Esotérico” (“Até que nem tanto esotérico assim, se eu sou algo incompreensível, meu Deus é mais”), gravado com Caetano, Gal e Bethania, os Doces Bárbaros, marca registrada da metade dos anos 70. E, então, veio a trilogia do “Re”: Refavela, Refazenda e Realce. Em conjunto, formam um painel musical e indicam novas trilhas poéticas. O painel vai do baião ao reggae, passando por samba de breque, funk e rock. Era um Gil dançante, com shows marcados por muitas brincadeiras sonoras. E as letras, já muito ricas, começaram a ganhar mais rebuscamento e profundidade.

Não há fase melhor ou pior. São apenas caminhos diferentes. O Gil “cronista” de “Domingo no Parque” e “Ele Falava Nisso Todo Dia” foi dando espaço, ao longo de décadas, para o Gil “filosófico” de “Copo Vazio”, “Se Eu Quiser Falar com Deus” e a curiosíssima “Pessoa Nefasta”, letra rara por tratar de forma tão inusitada e bonita um sentimento muito pouco cantado: o ódio. E foram surgindo versos como:

É a sua vida que eu quero bordar na minha

Como se eu fosse o pano e você fosse a linha

E a agulha do real nas mãos da fantasia

Fosse bordando ponto a ponto nosso dia a dia”

(A Linha e o Linho).

A coleção de belezas é tão vasta quanto rica. Vai do engajamento de “Cálice” à  sensibilidade de “Drão”, da tranquilidade de “A Paz” à brutalidade de “Punk da Periferia”, da cinematográfica “Superhomem” à poética “Metáfora”. Coletâneas de sentimentos provocados pela escolha certa e ordenamento correto das palavras.

Você há de perguntar: e onde ficam “Aquele Abraço”, “Andar Com Fé”, “Palco” e tantos outras canções e sucessos não citados aqui? Onde ficam discos temáticos, como o dedicado ao baião e o de regravação de músicas cantadas por João Gilberto? E o excelente violão e canto de Gil, onde estão? Ah! Há tanto a se falar… Mas o todo não foi detalhado nesse texto porque aqui se pretendia apenas marcar, de forma bem rápida, uma linha de pensamento sobre uma obra rica e singular. E há algo além e bem mais importante… o todo e o tudo dessa obra estão  onde deveriam estar: no coração e na mente de quem aprecia e preserva, com seu respeito e memória, a obra de um de nossos artistas mais geniais.

Antonio Carlos tem 32 anos de jornalismo. E um tempo bem maior no acompanhamento das notícias. Já viu muitos acontecimentos espantosos. Mas sempre se sente surpreendido por novos fatos, porque o inesperado é a maior qualidade das coberturas jornalísticas. E também da vida...

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