Flordelis: ascensão política e os planos de matar o marido - ES360

Flordelis: ascensão política e os planos de matar o marido

Antes de ser alçada à política nacional, Flordelis já havia concorrido a vereadora de São Gonçalo duas vezes, em 2008 e 2012, sem sucesso

Deputada federal Flordelis. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Deputada federal Flordelis. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

 

Filiada ao Partido Social Democrático (PSD), Flordelis recebeu 196.959 votos na eleição de 2018, tornando-se a deputada federal com o quinto melhor desempenho no Rio de Janeiro, o maior entre candidatas mulheres. Para a polícia, também foi nesse período que o plano de matar o marido Anderson do Carmo começava a ser posto em ação, conforme documentos oficiais a que o jornal O Estado de S. Paulo teve acesso, incluindo o relatório final da Polícia Civil, duas denúncias oferecidas pela promotoria, além de depoimentos juntados aos autos.

Antes de ser alçada à política nacional, Flordelis já havia concorrido a vereadora de São Gonçalo duas vezes, em 2008 e 2012, sem sucesso.

Com a ascensão repentina, o protagonismo da bancada evangélica e elogios recebidos de figuras relevantes, a exemplo da primeira-dama Michelle Bolsonaro e da ministra Damares Alves, no entanto, ela e o marido passaram a figurar entre os cotados para a disputa da prefeitura em 2020.

Considerado o principal mentor da mulher, Anderson foi muito ativo durante a campanha. Naquele pleito, a família também conseguiria emplacar um filho adotivo na Câmara de São Gonçalo. Era Wagner Andrade Pimenta, o Misael da Flordelis, de 41 anos – que após o assassinato se voltou contra a mãe e passou a adotar apenas o nome de Misael. Em Brasília, Anderson era atuante nos bastidores e administrava verbas de gabinete da deputada federal, além de continuar gerenciando as carreiras eclesiástica e artística da mulher. O controle financeiro exercido pelo pastor, que já incomodava parte da família antes, foi escalonando e ganhou força após Flordelis assumir o mandato, segundo os investigadores. Para o grupo, Anderson ficava com muito e repassava muito pouco.

Flordelis teria começado a cooptar parentes do núcleo de confiança em meados de 2018, o que resultaria em uma sequência de tentativas frustradas de homicídio, diz a acusação. A lista inclui envenenamentos em série, procura por pistoleiros e simulações de assaltos. “Anderson era excepcional para gerir os negócios, mas também muito rigoroso para dirimir os conflitos da casa. Cortava mesada, punia”, diz o delegado Allan Duarte, titular da Divisão de Homicídios de Niterói e São Gonçalo, responsável pelo inquérito. “Isso provocou uma revolta, uma indignação por parte daqueles que se sentiram injustiçados, até o momento que uma facção, de fato, se formou dentro da família.”

Sete dos oito parentes denunciados por associação criminosa pelo Ministério Público fazem parte da chamada “primeira geração” da casa. Ao menos dois deles também eram assessores parlamentares.

O plano

Uma conversa entre Flordelis e o filho socioafetivo André Luiz de Oliveira, o Bigode, em outubro de 2018, é considerada reveladora pela polícia. Por WhatsApp, a pastora manda mensagens pedindo ajuda ao filho para “pôr um fim nisso”. “Cara, tô te pedindo, te implorando. Até quando vamos ter que suportar esse traste no nosso meio? Independência financeira é pouco.”

Em dezembro, Flordelis escreve mais uma vez a André. “Fazer mais o quê? Separar eu não posso, porque vai escandalizar o nome de Deus”, diz a mensagem. Com sintomas de vômito, febre e diarreia, Anderson deu entrada seis vezes no hospital entre abril e outubro daquele ano. Para a investigação, o intervalo coincide com “as persistentes tentativas de envenenamento” do pastor.

No período, outros dois familiares também chegaram a passar mal. Um deles após aceitar uma bebida oferecida por Anderson e o outro por consumir um leite fermentado que estava aberto na geladeira. Ex-namorada dos pastor e filha biológica de Flordelis, Simone dos Santos Rodrigues teria confessado ao irmão Luan Santos que participava das tentativas de envenenamento. “Mas o bicho é ruim de morrer” é a frase atribuída à acusada.

Após quebra de sigilo do celular, a polícia descobriu que ela pesquisou na internet termos como “cianeto nos alimentos” e “cianeto onde comprar”.

A filha adotiva Marzy Teixeira da Silva, de 36 anos, também teria procurado “veneno para matar pessoa que seja letal fácil de comprar” e “cianureto de cobre PA comprar no Rio”, segundo a polícia. Mais tarde, ela faria buscas por “alguém da barra pesada” e “assassino onde achar”.

Para a acusação, esse é um dos indícios de que, como o envenenamento não surtia o efeito esperado, o plano teria evoluído depois para simulação de um latrocínio. Segundo testemunha ouvida no inquérito, Rayane dos Santos Oliveira (filha adotiva de Simone e neta de Flordelis) teria questionado se ela conhecia “algum bandido” e disse que estaria “precisando (de um) urgente”.

Embora a moça tenha respondido que não, a família teria conseguido contratar um pistoleiro. De acordo com a investigação, o criminoso chegou a ir à porta do Ministério Flordelis para executar o serviço, mas Anderson teria escapado por sorte. Sem saber da emboscada, o pastor usou um veículo que não era o de costume para sair da igreja – ainda assim, o valor combinado de R$ 2 mil teria sido entregue por André, o Bigode.

Uma mensagem de janeiro de 2019, atribuída a Flordelis, reforça a tese da encenação do roubo. “Dez mil (reais) depois do serviço feito, mas as outras pessoas do carro não podem ser atingidas”, diz parte do texto.

Na ocasião, Anderson teria saído de casa para uma concessionária “Simula um assalto, ele foi para o Rio hoje.”

Na lista de filhos denunciados também estão o adotivo Carlos Ubiraci Francisco da Silva, o Neném, e o biológico Adriano dos Santos Rodrigues, de 33 anos. Outras duas pessoas, que não fazem parte da família, também estão presas, suspeitas de participar de uma tentativa de fraude do processo.

Segundo a investigação, Neném é acusado de ajudar a tramar a execução e de mentir em depoimento. À polícia, uma filha declarou que ele teria preferido apoiar Flordelis por ser financeiramente dependente da deputada.

Já Adriano é suspeito de tentar ajudar a incriminar outras pessoas, incluindo os irmãos Misael e Luan Santos, motivo pelo qual responde por associação criminosa e falsidade ideológica – mas não por homicídio. “Mãe, quero falar uma coisa para a senhora. Independente do que aconteça eu sempre vou te amar” é uma das falas atribuídas a ele no processo.

Com base em depoimentos, os investigadores afirmam, ainda, que Anderson chegou a saber do plano para assassiná-lo e até recebeu, por deslize dos acusados, mensagem tratando sobre o assunto – o iPad do pastor era sincronizado. No entanto, ele não teria levado a ameaça a sério. Segundo testemunhas, para o pastor era “Deus no céu e Flordelis na Terra”.

Estadão Conteúdo


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