Em entrevista no Roda Viva, Moro fala sobre vazamentos da Lava Jato e eleições - ES360

Em entrevista no Roda Viva, Moro fala sobre vazamentos da Lava Jato e eleições

O ministro da Justiça falou também sobre o assassinato da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco. Confira os principais trechos da entrevista:

Em entrevista na noite desta segunda-feira, 20, ao programa Roda Viva, da TV Cultura, o ministro da Justiça, Sérgio Moro, falou sobre o conteúdo vazado da operação Lava Jato ao site The Intercept Brasil. Ele também comentou sobre a liberdade de imprensa no governo Bolsonaro e o assassinato da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco (PSOL). Questionado ainda sobre uma eventual candidatura à Presidência da República, o ministro disse não ter interesse ao cargo.

Vaza Jato

O ministro disse que o conteúdo publicado pela Vaza Jato, do site The Intercept Brasil, foi um “episódio menor” e afirmou que nunca deu “muita importância para isso”. “Foi um monte de ‘bobeiragem’, eu nunca entendi”, disse Moro na entrevista.

“Aquilo foi usado politicamente para soltar criminosos, presos por corrupção, para enfraquecer o ministério, eu estou com a consciência tranquila de tudo o que fiz como juiz”, afirmou.

Liberdade de imprensa

Questionado sobre as vezes em que o presidente Jair Bolsonaro atacou jornalistas, como a que ele mandou uma repórter calar a boca, Moro evitou criticar o chefe do Executivo, mas disse que “muitas vezes ele reage” quando é criticado.

O ministro disse que chegou a se falar durante as eleições que Bolsonaro cercearia a liberdade de imprensa e o poder Judiciário afirmou acreditar que o presidente tem “dado ampla liberdade à imprensa”. “Não se vê qualquer iniciativa”, afirmou na noite desta segunda-feira, 20.

Moro, então, foi interrompido pelos jornalistas do programa, que passaram a listar alguns casos em que o presidente atacou jornalistas e tratou veículos de imprensa com discriminação. O ministro respondeu que se tivesse recusado ser entrevistado pelo Roda Viva não estaria agindo contra a liberdade de imprensa, pois tem o direito de ir e vir. “Ele é criticado e reage”, disse em seguida, sobre o presidente.

Em outro momento da entrevista, Moro afirmou, também, que não tem animosidades com o presidente. “Minha relação com ele é ótima”, disse. Declarou ainda que os boatos sobre sua demissão foram “um tanto quanto exagerados”, em referência a trecho do livro “Tormenta”, da jornalista Thaís Oyama, que conta que Bolsonaro quis demitir Moro, mas foi convencido do contrário pelo ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, Augusto Heleno.

Caso Marielle

Sérgio Moro mudou de opinião e passou agora a se opor à federalização das investigações do assassinato da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes. Em documento sigiloso obtido pelo jornal O Estado de S. Paulo, o ministro defende prestigiar o entendimento dos familiares de Marielle, que são contrários à transferência do caso.

A manifestação da pasta comandada por Moro subsidia o parecer da Advocacia-Geral da União (AGU), que se manifestou contra retirar a apuração das mãos das autoridades do Rio.

Marielle foi assassinada a tiros no centro do Rio, em um caso que aguarda solução há quase dois anos. Na véspera de deixar o cargo, em setembro do ano passado, a então procuradora-geral da República, Raquel Dodge, pediu a federalização das investigações, sob a alegação de que deixar o inquérito com a Polícia Civil do Rio podia gerar “desvios e simulações”. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) ainda não decidiu se aceita o pedido.

Ao programa Roda Viva, da TV Cultura, Moro afirmou que as críticas de familiares de Marielle a uma possível federalização do caso o fizeram mudar de posição.

“(Os familiares) Levantaram, de uma forma não muito justa, que a ideia de federalizar era para que o governo federal, de alguma forma, obstruísse as investigações, o que era falso. Foi o próprio governo federal, com a investigação na Polícia Federal, que possibilitou que a investigação tomasse o rumo correto”, disse Moro. “O governo não tem nenhuma intenção de proteger os mandantes desse assassinato.”

Questionado se Bolsonaro concordou com a mudança de opinião, Moro disse ter “comentado” com o presidente, mas não entrou em detalhes.

“O presidente sempre apoiou, sempre entendeu que isso deveria ser investigado. Houve essa investigação da PF (sobre obstrução) e nunca houve qualquer interferência indevida por parte do presidente. Nunca houve qualquer afirmação ‘não faça isso, não faça aquilo’, sempre se trabalhou para que os fatos fossem, da melhor maneira, elucidados”, afirmou. “O governo é o maior interessado em elucidar esse crime”, concluiu o ministro.

Eleições 2022

O ministro da Justiça e Segurança Pública, Sérgio Moro, negou uma eventual candidatura à Presidência da República em 2022.

“Não tenho esse tipo de ambição. Temos de ter bastante pé no chão, existe o famoso ditado antigo que diz sic transit gloria mundi (toda glória do mundo é transitória, em latim). Então, essas questões de popularidade, elas vem, vão, passam, e o importante para mim é fazer meu trabalho como ministro da Justiça, e foi o que eu me propus com o presidente, acho que estamos num caminho certo”, afirmou.

Questionado se assinaria um documento em que se comprometeria a não concorrer, o ex-juiz da Lava Jato afirmou: “não faz sentido assinar um documento desse, porque muitas pessoas assinaram e depois rasgaram. Eu não tenho esse tipo de pretensão”.

O presidente Jair Bolsonaro chegou a cogitar o nome do ex-ministro para seu vice nas próximas eleições. Pesquisa Datafolha divulgada em janeiro indica que o ministro da Justiça é conhecido por 93% dos brasileiros e aprovado por 53%. Antes, o mesmo instituto divulgou pesquisa de avaliação do presidente da República, Jair Bolsonaro, indicando que a aprovação dele é mais modesta, de 30%.

Moro, no entanto, afirma que o “candidato do presidente Jair Bolsonaro deve ser ele mesmo”. “Ele já manifestou o desejo de ser reeleito”, disse.

“Se um ministro do presidente Jair Bolsonaro, evidentemente, os ministros vão apoiar o presidente. É um caminho natural. Eu não tenho esse tipo de ambição. Eu posso dizer: minha vida é suficientemente complicada Eu estou pensando no presente momento Não posso pensar no que vou fazer daqui a dez anos”, afirmou o ministro, que ainda especulou sobre a possibilidade de tirar “um ano sabático” ou de migrar para a iniciativa privada.

Vaga no STF

Moro também disse que não considera apropriado discutir a possibilidade de assumir uma vaga no Supremo Tribunal Federal. “Não tem vaga no momento, então, não vou discutir vaga sem que a vaga exista”, afirmou o ministro no Roda Viva.

Moro reiterou que está focado em aprofundar o seu trabalho no Ministério da Justiça. “O presidente vai decidir quando surgir a vaga”, disse. O ministro esclareceu ainda que não é evangélico, após menção feita à declaração do presidente Jair Bolsonaro de que deseja nomear um ministro “terrivelmente evangélico” para uma das vagas que surgirem durante seu mandato. “Eu sou católico”, disse.

Pacote anticrime

O ministro negou que tenha feito pressão sobre o Congresso Nacional para aprovar o projeto anticrime. “O Ministério apresenta um projeto de lei e tem desejo que se aprove como foi enviado e é papel do Parlamento alterar, aprovar ou não aprovar. Nunca houve espécie nenhuma de pressão”, disse o ministro, após ter sido questionado sobre os vídeos que o governo federal lançou em favor do projeto.

Moro afirmou também que tem um trato “muito cordial” com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), que chegou a criticar o ex-juiz pela postura do ministro em relação ao projeto. “Pode surgir alguma faísca, mas é uma relação institucional”, disse. Moro também voltou a comentar a questão do juiz de garantias e disse que essa não é uma prioridade para melhoria do Poder Judiciário.

Alvim

Sérgio Moro chamou de “bizarro” o vídeo do ex-secretário da Cultura Roberto Alvim, que, quando ainda estava no cargo, na semana passada, parafraseou o ministro da Propaganda de Adolf Hitler, Joseph Goebbels, e foi demitido no dia seguinte em razão disso.

“No caso do secretário, foi um episódio bizarro e, tendo ciência, dei minha opinião ao presidente, e cabe a ele tomar a decisão. Ele tomou uma decisão absolutamente correta, ele fala pelo Poder Executivo”, disse o ministro, após ter sido questionado no Roda Viva pela ausência de manifestação pública sobre o caso.

Moro também foi questionado sobre o silêncio em relação ao caso do ataque terrorista à sede da produtora Porta dos Fundos. “Não cabe ao ministro ser comentarista de tudo, de política”, afirmou

O ex-juiz também evitou comentar o caso do titular da pasta do Turismo, Marcelo Alvaro Antonio, denunciado no caso do lançamento de candidaturas de laranjas pelo PSL de Minas Gerais em 2018. “Cabe a Bolsonaro fazer avaliação sobre ministro do Turismo”, disse Moro.

Lula

O ministro da Justiça negou que tenha havido manipulação na divulgação, em 2016, de conversas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com a então presidente Dilma Rousseff. “A opção por tornar tudo pública. Não houve manipulação nenhuma. Os áudios revelavam tentativa de obstrução de Justiça, pura e simples”, disse o ministro no Roda Viva.

Moro declarou ainda que a divulgação foi um pedido da Polícia Federal e do Ministério Público Federal (MPF), pelo interesse público. “Se houve reflexo político ou não, isso não é responsabilidade do juiz, foi a decisão correta para o processo, e eu proferi uma decisão fundamentada”, disse.

Moro afirmou também que a divulgação da delação do ex-ministro Antonio Palocci foi “superdimensionada”, após ter sido questionado se não foi incoerente ter divulgado a delação quatro dias antes do primeiro turno da eleição do ano passado e ter negado a entrevista do ex-presidente Lula à Folha de S Paulo. “O que estava na delação ele já havia falado, não havia novidade”, disse. “E, olhando o que aconteceu, eu não acredito que tenha interferido na eleição.”

Com Estadão Conteúdo

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