Eleições 2020: Raphael Góes quer dar voz à classe trabalhadora - ES360

Eleições 2020: Raphael Góes quer dar voz à classe trabalhadora

O candidato do PSTU pontuou os problemas encontrados na educação da capital e questionou o destino das verbas municipais

O Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados (PSTU) escolheu, no último mês, o professor de Física da Ufes Raphael Góes Furtado, como representante na disputa pela prefeitura nas próximas eleições da capital.

Em entrevista à BandNewsFM Espírito Santo, o candidato reforçou as mudanças que acredita serem necessárias para a capital, ressaltando os desgastes ocasionados pela pandemia do novo coronavírus. Para Raphael, a lógica de distribuição do orçamento em Vitória precisa ser retrabalhada, para que a classe trabalhadora esteja mais presente nas decisões tomadas. Na educação, prometeu fornecer melhor acolhimento nas creches e opinou sobre a abertura de escolas cívico-militares. Confira os destaques abaixo:

Motivação

“O PSTU lançou a candidatura porque percebeu que a cidade funciona à serviço de uma minoria. A grande maioria dos trabalhadores que constrói toda essa riqueza da cidade é excluída, tanto do processo de decisões quanto do resultado obtido, ou seja: a riqueza produzida não retorna pra essa população. Para que a classe trabalhadora, para que os mais pobres possam de fato governar, é necessário apresentar uma candidatura com visões diferentes de tudo isso que está aí.”

Local x nacional

“É complicado avaliar agora como vai se dar esse processo eleitoral. Estamos vivendo numa situação de pandemia e numa eleição muito curta. O fato é que temos uma população muito impactada pela pandemia, pela crise econômica, pela fome. Temos dados agora que mostram 10 milhões de pessoas abaixo da linha da fome no país, então, acho que as pessoas irão votar pensando em necessidades mais imediatas. Mas como elas farão a leitura disso, se terá reflexão nacional maior ou se será mais localizado, eu não tenho idéia. Nós faremos debate das coisas à partir de uma totalidade, não dá para pensar na cidade descolada da situação nacional. Não podemos ignorar a pandemia, com 140 mil mortos, ou ignorar que nós tivemos uma queda de 10% do PIB no último trimestre. Que tem mais gente recebendo auxílio emergencial do que gente de carteira assinada. As pessoas irão votar com o estômago e com o bolso.”

Mobilidade

“É uma das questões mais cruciais. Você vê o quão ruim é o transporte urbano quando observa nos horários de pico as pessoas sendo submetidas a uma situação desumana dentro dos coletivos. Ainda mais no período de pandemia: você tem uma recomendação de um metro e meio de afastamento e as pessoas andam pressionadas umas contra as outras. É um serviço altamente precarizado para população, e acaba fazendo com que quem tenha mais condições não use o transporte coletivo, contribuindo para o engarrafamento e poluindo mais. É necessário uma reforma muito importante no ponto de vista do transporte coletivo. Toda a lógica do transporte urbano está voltada para o lucro das empresas que fazem parte do sistema, e a prefeitura e o Estado estão a serviço disso. A gente entende que o transporte deve ser visto como direito da população, e não deveria estar na mão de empresas privadas. Precisamos estatizar o transporte coletivo, e fazer com que ele seja controlado pela classe trabalhadora, garantindo uma lotação que respeite a dignidade. Com passe livre para a população circular pela cidade de Vitória de forma integral.”

Investimento

“O PSTU entende que toda a lógica colocada no orçamento e investimento está errada, precisamos pensar em uma outra forma de atuar nisso. Vimos no debate da reforma da Previdência que o país iria quebrar caso a reforma não fosse feita, e que com isso liberariam-se R$ 1 trilhão em dez anos. O que se viu é que em pouco mais de um mês de pandemia foram liberados R$ 1,3 trilhão de reserva de caixa do Banco Central para os bancos do país. Essa discussão tem que ser pensada nacionalmente. Você tem trilhões dados aos bancos para liberar créditos para pequenas empresas que nunca foram usados, você tem reservas internacionais de valores bilionários. Se o povo está passando fome, se o povo está morrendo, não é possível usar esse tipo de dinheiro? E temos a dívida pública que consome 40% do orçamento e a Constituição diz que precisa ser auditada e nunca é auditada. É preciso pensar em mudar o destino dessa verba, pois grande parte do orçamento não é usado em benefício da população. É preciso pensar em impostos municipais, eles são injustos. O IPTU, por exemplo: a diferença de valor paga entre alguém que mora em Resistência e outra que mora na Ilha do Frade é ridícula! Esse imposto precisa ser exonerado em setores mais pobres.”

Educação

“Sou professor de Física na Ufes e digo que alguns pontos precisam ser melhorados. Um dos maiores gargalos que a gente observa em relação à educação é a fase pré-escolar. É extremamente difícil conseguir uma vaga numa creche da prefeitura que acolha por mais de quatro horas. Muitas vezes as mães precisam pagar uma creche particular, ou deixam a criança o resto do dia em casa ou com algum parente para cuidar. Precisamos de creches de período integral. Outro debate é em relação às escolas de tempo integral: precisamos entender o que é isso. Normalmente se fala em escola de tempo integral para jovens e adolescentes, que de certa forma vivem em ambiente de risco social, e que deveriam ficar na escola por ela representar segurança. Mas geralmente esses projetos são pensados colocando o estudante em uma série de oficinas atendidas por profissionais terceirizados, sem teorizar o que significam esses espaços. Deveríamos ter profissionais concursados para trabalhar com essas crianças, auxiliando nas atividades escolares, ajudar no estudo, pois geralmente é o que falta no lar desses jovens. Não precisamos ocupar o tempo desses jovens e sim ajudar na integração com a sociedade. Sobre as escolas militares, nós somos totalmente contra. Lugar de militar é no quartel, formação de militar é para guerra. As escolas precisam de professores, pedagogos, psicólogos e assistentes sociais. Precisam de pessoas formadas pra entender e avançar no processo educativo.”

Lutas e revolução

“Uma das questões centrais no momento é a luta contra a pandemia. Lamentamos profundamente que o governo do Estado esteja apontando o retorno às aulas no meio desta luta. Entendemos que a política correta na pandemia é garantir uma quarentena de verdade, um isolamento com controle. Com pequenos comerciantes recebendo auxílio para não quebrar, e de pessoas sendo assistidas financeiramente. Por conta desse vaivem há um número de mortes extremamente desnecessário. Isso mostra o caráter genocida deste sistema capitalista. Gostaria de saldar outros professores que estão se organizando para uma greve contra isso. A gente acredita que esse é o caminho, o caminho das lutas, da organização dos trabalhadores, da nossa classe. A gente entende que a democracia se dá através do máximo de instâncias de base, governando a partir de conselhos populares, nos bairros, que discutam o orçamento da cidade, que discutam a política sendo feita. Eu queria ressaltar também a luta pela legalização do aborto. O estado foi manchete nacional por conta de um caso bárbaro de uma criança de dez anos que foi estuprada em São Mateus, engravidou e teve dificuldade pra interromper. Nós entendemos que o aborto legalizado é uma questão de saúde pública, e se ganharmos essa eleição iremos estimular este debate. É necessário uma revolução socialista contra toda essa barbárie e esse é o programa da nossa campanha.”

Ouça a entrevista completa:


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