Dos modismos linguísticos: o que o uso de determinados termos pode revelar? - ES360

Dos modismos linguísticos: o que o uso de determinados termos pode revelar?

Não quero ser chata. Evito até tecer comentários em relação à maneira de as pessoas se expressarem, evitando o excesso de preciosismo e o jargão “Lá vem a professora de português!”. Mas vou aproveitar a coluna LINGUAviaGEM para listar algumas expressões que se tornaram moda e, por isso, tiveram seus sentidos originais enfraquecidos e deturpados. Palavras que surgem em um determinado contexto, às vezes estrangeiro, e chegam até nós como onda, tornam-se um simples modismo. Querem ver?

Levante a mão quem não ouviu ou leu, neste mês de novembro, uma única vez, o termo coach ou coaching? Não sei se é porque fico prestando atenção, mas ouvi pelo menos três vezes nesta semana. Vi, inclusive, o cartão de uma podóloga que se dizia coach dos pés! Nada contra o termo, que vem do inglês e significa originalmente, “pessoa cujo trabalho consiste em ajudar uma ou várias pessoas a desenvolver suas habilidades (profissionais ou pessoais)” (www.dicio.com.br). Pode-se argumentar que, em inglês, a palavra imprime certo status (outro estrangeirismo já acomodado em nossa língua). Mas, por que não simplesmente “podólogo(a)”?

Alguns psicólogos se tornaram coachs também. Nada contra. Até compreendo que, assim, o termo pode passar a ideia de um tratamento especial, mais moderno, embora eu, particularmente, não reconheça tanta diferença entre terapeuta/psicólogo e coach. No fundo, no fundo, são pessoas que cuidam de outras, as escutam e auxiliam, “lendo” a fala (e os silêncios, os gestos, as expressões faciais etc.) e ajudam o paciente a se ver com outros olhos, a se compreender e a encontrar saídas para a sua vida e seus relacionamentos. A ênfase no uso da expressão, entretanto, soa, em algumas situações, muito artificial. Fiz terapia a vida toda e confesso sentir uma certa “preguiça” (como dizia minha sogra) quando a expressão é realçada pelo profissional como se fosse um tratamento de outro mundo, ultramoderno e específico. Será?

Outra palavra que vem se repetindo e seus sentidos banalizados é empatia. Tudo bem, vivemos em um mundo de muita aspereza. As pessoas parecem ter se liberado para serem e agirem como se estivessem sozinhas no seu quarto: gritam, agridem, pensam alto, expõem sua selvageria sem nenhum desconforto. E a empatia tem se mostrado bem representativa de muitas virtudes que gostaríamos de semear. Usada de forma indiscriminada e excessiva, entretanto, enfraquece algo tão importante de ser cultivado: o se colocar no lugar do outro, procurar sentir o que ele sente.

Nesta mesma linha, há a expressão gratidão. Em muitos casos, só a palavra, em letras garrafais: “GRATIDÃO”! E com exclamação! Essa vem liderando a lista. Pode ser que eu me acostume e passe a encará-la como se estivesse ouvindo o “muito obrigado(a)” ou “sou muito agradecido(a)”. Pode ser…

Tudo isso é para dizer o quanto precisamos desenvolver a autocrítica em relação à nossa comunicação, à capacidade de ouvir o que falamos, sermos leitores de nossos próprios textos, um pouco terapeutas de nós mesmos. Os excessos costumam apontar faltas. Vamos prestar atenção no que está nos faltando, na imagem que estamos querendo imprimir e que, em certos momentos, não corresponde ao real. É preciso perguntar a si mesmo: “Estou querendo ‘causar’? Por quê?”. Procuro fazer esse exercício sempre, mesmo sabendo que tenho lá meus vícios e devo usar estratégias para driblar vícios de outra ordem. Aí só a terapia para ajudar.

Para finalizar, concluo com uma frase que se tornou moda também: “Pronto, falei”.

  • O nome – LINGUAviaGEM – é referência ao poema de Augusto de Campos, de 1967-1970, que concretiza bem os propósitos deste espaço.

Professora de Português, Literatura e Redação. Tem o prazer de ensinar (e aprender) a ler e a escrever há mais de 30 anos.

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