Covid-19: 351 pessoas morreram antes de chegar a um leito de UTI no Espírito Santo - ES360

Covid-19: 351 pessoas morreram antes de chegar a um leito de UTI no Espírito Santo

Em seis Estados brasileiros, ao menos 4.132 pessoas morreram antes de conseguir chegar a um leito de terapia intensiva para o tratamento da covid-19

País tem 92.789 mortes por coronavírus. Foto: Antonio Molina/FotoArena/Estadão Conteúdo
Mortes por coronavírus. Foto: Antonio Molina/FotoArena/Estadão Conteúdo

 

Durante a pandemia do novo coronavírus, ao menos 4.132 pessoas morreram antes de conseguir chegar a um leito de terapia intensiva para o tratamento da covid-19 em seis Estados: Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Minas Gerais, Espírito Santo, Bahia e Maranhão. Os números são do levantamento feito pelo El País junto as secretarias estaduais da saúde. O jornal procurou as 27 unidades da federação para saber quantas solicitações por uma UTI com perfil de covid-19 foram canceladas por morte do paciente em suas centrais de regulação ― setor que recebe todos os pedidos das unidades de saúde da rede estadual e os distribui conforme vários critérios, incluindo a gravidade do paciente. No Espírito Santo, 351 pacientes faleceram antes de serem transferidas para UTIs de covid-19.

O EL PAÍS revelou que essas mais de 4.000 mortes à espera por um leito retratam a situação em menos de um terço do Brasil, já que apenas seis Estados informaram este dado, que pode incluir tanto os casos de desassistência por conta do colapso do sistema de saúde, quanto situações em que pacientes já chegaram tão graves que não houve tempo para colocá-los na terapia intensiva. A epidemia se desenhou em diferentes velocidades ao longo dos últimos seis meses e os impactos observados até agora são muito distintos entre os Estados, historicamente marcados pela desigualdade que permeia o sistema de saúde.

De acordo com o EL PAÍS, nos primeiros meses da crise ―especialmente em abril e maio―, Amazonas, Ceará e Rio de Janeiro protagonizaram histórias duras da pandemia, com hospitais superlotados. Foram registradas longas filas de espera por um leito de unidade de terapia intensiva. Em alguns locais, unidades de pronto atendimento chegaram a funcionar praticamente como hospitais, improvisaram leitos de estabilização para pacientes que precisavam ser entubados e instalaram até contêineres frigoríficos para armazenar corpos. Simplesmente não havia leitos de UTI suficientes para atender à demanda, embora gestores locais afirmassem que trabalhavam para expandir o sistema de saúde. Desde então, taxas de ocupação hospitalares têm caído, seja por sinais de arrefecimento de casos graves que demandam internação ou pelas vagas de UTI criadas durante a crise.

O levantamento apontou que ao menos 2.340 pacientes infectados pelo novo coronavírus morreram antes de chegar a um leito de terapia intensiva no Rio de Janeiro. Segundo dados repassados pelo Governo do Estado, a constatação do óbito foi a principal causa de cancelamento de solicitações feitas à central de regulação estadual. E corresponde quase à metade dos 5.080 cancelamentos feitos nos últimos meses relacionados aos leitos de covid-19. Esses cancelamentos ocorrem por diversos motivos, como alta hospitalar, melhora clínica, falta de condições de transporte, desistência, fora do perfil, dentre outros. Nos últimos meses,

Na Bahia, os dados apontaram que 734 pessoas morreram antes de serem transferidas para UTIs de covid-19. Mais da metade delas (482) somente nos meses de junho e julho, período em o coronavírus ganhar velocidade no Estado, quando as curvas tanto de casos quanto de óbitos ficaram mais íngremes. Em agosto, a Bahia se tornou o segundo Estado do país com mais infecções, em números absolutos. A Secretaria Estadual afirma que nem todos os pacientes que morreram à espera de um leito na terapia intensiva de covid-19 tinham o resultado positivo do teste RT-PCR e alega que, por isso, não é possível dizer que todos estivessem de fato infectados. O Ministério da Saúde, porém, já não exige este tipo de exame para determinar o diagnóstico. A doença pode ser diagnosticada clinicamente por um médico ou mesmo com base em exames de imagem e outros testes laboratoriais. Porém, esses pacientes mencionado nesta reportagem do EL PAÍS esperavam por uma vaga em uma unidade direcionada ao tratamento de covid-19.

O Rio Grande do Norte registrou 314 mortes de pacientes à espera de uma UTI ― cerca de 14% de todas as mortes pela covid-19 no Estado. Embora o primeiro óbito tenha sido identificado ainda no final de março, foi a partir de junho que a epidemia ganhou força no Estado potiguar, pressionando o sistema de saúde. O El País lembra que a situação chegou a ficar crítica, mas há semanas dá sinais de estagnação da doença. Também no Nordeste ―uma das regiões brasileiras mais impactadas pela pandemia e com sistemas de saúde mais frágeis―, o Maranhão conta ao menos 97 pacientes com covid-19 que faleceram antes de conseguir chegar à terapia intensiva.

Já o Rio Grande do Sul chegou a afirmar que 174 pessoas morreram enquanto aguardavam um leito, mas depois recuou e disse que o número corresponde na verdade a todos os que morreram enquanto aguardavam um leito desde março, seja com perfil covid-19 ou não. No entanto, o Paraná revelou que 643 solicitações por UTIs para tratar pacientes com a covid-19 foram canceladas na sua central de regulação, mas não especifica quais os motivos da retirada desses pacientes da fila de leitos.

Para o EL PAÍS, Minas Gerais informou que 296 pacientes morreram antes de darem entrada em um leito de UTI. No Estado, as mortes em decorrência da covid-19 dobraram em um mês. Minas viveu uma guinada de perspectiva sobre a pandemia. Começou a registrar os primeiros casos e óbitos ainda no início da crise, mas autoridades mostravam uma “situação sob controle”, quando dados oficiais apontavam apenas 250 mortes. Quando os testes cresceram no Estado, os números da pandemia também começaram a subir. Desde fevereiro, foram criados 1.767 novos leitos de UTI do SUS em Minas. O painel estadual apontou que a taxa de ocupação dos leitos de terapia intensiva na última semana de agosto era em torno de 65%. Ainda no Sudeste, São Paulo, porta de entrada para o vírus no Brasil e que concentra desde o início da crise os maiores números absolutos de casos e óbitos pelo coronavírus, também não apresentou seus dados, assim como as demais unidades da federação não mencionadas na reportagem.

O Acre também não apresentou números, mas respondeu a reportagem. Por e-mail, a Secretaria da Saúde do Estado informou apenas que não faz cancelamento de solicitação de leitos. Não detalhou se usa outra nomenclatura para as solicitações não atendidas e nem apresentou dados sobre os pacientes que estavam na lista da central de regulação e saíram por algum motivo.

Em uma significativa parte do Brasil, as taxas de ocupação de leitos de UTI estão em queda, seja por uma possível desaceleração da epidemia ou pela abertura de novas vagas. O Infogripe, um grupo de pesquisa da Fiocruz que acompanha as internações por síndrome gripal no país, alerta que é preciso manter as políticas de prevenção porque mesmo regiões que já enfrentaram uma fase mais dura de contágio podem viver uma segunda onda de internações. O Brasil já soma, desde o começo da pandemia, mais de 115.000 mortes por covid-19.


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