Ave rara dá as graças no Espírito Santo - ES360

Ave rara dá as graças no Espírito Santo

  • Por Daniela Neris Nossa


O Espírito Santo possui uma avis rara como se dizia em latim. Algo dificílimo de achar, um tesouro que qualquer explorador naturalista do século XVIII arriscaria a vida para encontrar e descrever. Quem conseguiu esse feito foi Jean de Roure em 1870, cujo nome virou o sobrenome de uma das aves mais raras de todo o mundo, senão, a mais rara Nemosia rourei, ou saíra-apunhalada. Como todos os naturalistas faziam, a ave empalhada foi para Berlim, na Alemanha, onde foi batizada com seu nome e está lá até hoje em uma gaveta de museu com a etiqueta MNHB 20326.

 

Saíra-apunhalada. Foto: Joao Linhares
Saíra-apunhalada. Foto: Joao Linhares

A saíra-apunhalada é um pássaro miúdo e belo com as costas cinza e pretas, com seu ventre branco que contrasta com a sua linda garganta vermelha. Quem a encarar, poderá notar seus olhos vivos e amarelo-ouro. É uma espécie de extrema raridade e restrita a matas bem preservadas da Mata Atlântica capixaba. Está listada como Criticamente Ameaçada de Extinção e permaneceu desaparecida entre 1870 e 1941 e depois até 1995. A ave é tão rara que já chegou a ser considerada extinta do planeta Terra, mas foi redescoberta em 1998.

Existem poucos relatos e registros documentados sobre a espécie, e isso dificulta a tomada de decisões referentes a sua conservação. Nos primeiros 71 anos de sua história a espécie ficou desaparecida e foi considerada extinta, até que em 1941 ela foi observada pelo ornitólogo alemão Helmut Sick em Itarana, no ES, onde ele extasiado conseguiu observar um bando das aves. Posteriormente, cinco décadas se passaram, até que em 1995 houve um relato de um avistamento de um indivíduo em Santa Teresa. Em 1998, finalmente, a espécie foi capturada e anilhada na Fazenda Pindobas em Conceição do Castelo, no ES.

Em 2016, o Instituto Marcos Daniel (IMD) realizou um levantamento da ocorrência da saíra-apunhalada na mata de Caetés, atualmente a única área onde há registro de ocorrência da espécie no município de Vargem Alta, na divisa com o município de Castelo. Porém, não foi possível saber exatamente o número de indivíduos já que não houve avistamentos simultâneos em locais diferentes. Um suspiro de esperança sobre a sua existência, mas ao mesmo tempo, um alerta se acendeu quanto as chances de sobrevivência dessa avis rara.

Finalmente em 2020, surge o Programa de Conservação da saíra-apunhalada (PCSA) que é uma iniciativa do Instituto Marcos Daniel e da Transmissora Caminho do Café (TCC) e atende a uma condicionante ambiental da construção de uma linha de transmissão proposta pelo IBAMA. Programa foi elaborado e vem sendo executado pelo Instituto Marcos Daniel.

Os objetivo principal do programa é promover a conservação da saíra apunhalada e evitar sua extinção. Para isso será preciso definir a área de ocorrência histórica da espécie, o que nós já fizemos; desenvolver estudos de ecologia de populações que é o que nós estamos fazendo nesse momento, monitorando a população de saíras da mata de Caetés, no município de Vargem Alta. Com esses dados e conhecendo mais o território poderemos identificar as principais ameaças e junto com a comunidade local e especialistas definir as estratégias de conservação mais efetivas para essa espécie.

Equipe no monitoramento de ninho. Foto: Marcelo Renan
Equipe no monitoramento de ninho. Foto: Marcelo Renan

Nos últimos 3 meses um time de 21 pesquisadores se embrenhou nas matas altas, geladas e úmidas onde a saíra vive, no maior esforço já feito até hoje em busca da saíra apunhalada. Com todo esse esforço, conseguimos localizar a ave e até encontrar um ninho com dois filhotes, que se desenvolveram e deixaram o ninho aumentando seu pequeno bando. Foi como encontrar uma agulha em um palheiro de 3000 hectares.

Nesse curto tempo aprendemos mais sobre a saíra do que desde 1870. O que ela come, como se reproduz, como constrói seu ninho, como cuidam dos filhotes, enfim, muitas informações que serão fundamentais para pensarmos nas formas de protegê-la. Também descobrimos que há muitos desafios para sua sobrevivência e para a protegermos. Tempestades de vento que poderiam derrubar o ninho, tucanos e macacos-prego ávidos por comer ovos e filhotes, além das dificuldades de trabalharmos em campo na companhia as jararacas e mutucas.

Porém, para quem ama o que faz, todo esforço vale a pena diante da emoção do avistamento de algo tão raro, de ver os filhotes saindo do ninho com suas penas ainda atrapalhadas e com todo o esforço sendo recompensado.

Mesmo com tudo isso que aprendemos, ainda estamos no começo de uma jornada que vai longe. Estamos conhecendo a comunidade local, aguardando ansiosos o retorno das aulas para trabalharmos com os estudantes das escolas rurais com atividades de educação ambiental na mata e participarmos das lutas e desafios que a conciliação entre natureza e a produção de alimentos representa. Além disso, promoveremos um workshop no primeiro semestre de 2021, com a participação de diversos especialistas do Brasil e do mundo em planejamento de conservação para definirmos os próximos passos na conservação da saíra. Em tudo isso, uma coisa é certa. O engajamento da comunidade local será essencial para qualquer estratégia de conservação, e a valorização daqueles que ajudaram a preservar a mata de caetés é uma prioridade.

Todas as ações e estratégias em prol da saíra-apunhalada são baseadas em CIÊNCIA. Temos uma equipe extremamente capacitada de pesquisadores, aliada a Universidades que nos dão suporte tanto para coleta de informações quanto para o tratamento e uso desses dados. O nosso trabalho também busca integrar as áreas naturais públicas e privadas da região de ocorrência da saíra, para uma governança compartilhada, uma vez que a sobrevivência da espécie em longo-prazo depende do estabelecimento de corredores ecológicos entre essas Unidades de Conservação.

O programa de conservação da saíra apunhalada começou em janeiro de 2020, portanto, fomos atingidos em cheio pelo período da pandemia de COVID-19, que atrapalhou bastante nossos planos, porém, não nos impediu de alcançarmos resultados animadores e ao mesmo tempo preocupantes.

Nosso próximos desafios serão conhecer e garantir a viabilidade populacional da saíra-apunhalada pois o objetivo principal é aumentar o tamanho da sua população. Uma vez que tenhamos os dados ecológicos coletados e analisados, é definir as melhores estratégias de conservação e também captar recursos para a continuidade do programa na fase 2, quando devemos iniciar de fato um plano de ação para proteção da espécie.

Voo da saíra-apunhalada. Foto: João Linhares
Voo da saíra-apunhalada. Foto: João Linhares

Também precisamos captar os recursos necessários para a continuidade do programa. Quem quiser conhecer mais e ter mais informações sobre o Programa de Conservação da saíra-apunhalada pode acessar o site do Instituto Marcos Daniel e nos seguir nas redes sociais, tanto no Instagram quanto no Facebook.

Estamos fazendo um esforço enorme em prol da espécie mais rara, mas esse esforço, na verdade, se estende a todas as outras que formam a rica biodiversidade da nossa Mata Atlântica, em especial na Mata de Caetés uma jóia capixaba, que todos devemos proteger por nós e pelos nossos filhos e netos.

Saíra-apunhalada: no Espirito Santo, ela dá o ar da graça.

Sobre o autor

Daniela Neris Nossa. Foto: Divulgação

Daniela Neris Nossa é Médica Veterinária, Mestre em Ciência Animal, Pós-graduanda em Clínica e Cirurgia de Animais Selvagens, e atualmente atua como Educadora Ambiental no Programa de Conservação da Saira-apunhalada.

O Instituto Marcos Daniel é uma associação privada sem fins lucrativos qualificada como OSCIP (Organização da Sociedade Civil de interesse Público. Fundado em 2004, o foco de atuação do IMD é a elaboração e execução de projetos de conservação da biodiversidade e a formação de multiplicadores para a conservação da natureza. Neste propósito, temos contado com o apoio institucional de diversos órgãos públicos, universidades, ONGs e empresas, formando uma rede de elevado capital social e ampla capilaridade na sociedade, promovendo assim a conservação do maior patrimônio do Brasil, a sua biodiversidade.

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do ES360.


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