Assim como ocorreu após outras crises, mundo terá de ser repactuado - ES360

Assim como ocorreu após outras crises, mundo terá de ser repactuado

Caro leitor,

A partir de hoje vamos usar esse espaço para falar sobre política local, nacional, internacional, alguns temas mais curiosos, observações sobre o dia a dia… Enfim, vamos conversar com você sobre vários assuntos. Ao contrário do cenário atual, onde predomina a tentativa do pensamento hegemônico, as contestações e divergências serão muito bem aceitas.
Vamos lá?

AS LIDERANÇAS

Em momentos extremos, os países e o mundo sempre contaram com o surgimento de líderes, talhados pelos fatos e pelas crises. As soluções encontradas por eles nem sempre foram as ideais, nem sempre atingiram seus objetivos. Mas havia um rumo a ser seguido, principalmente no sentido de alcançar uma repactuação no status até então estabelecidos.

No episódio de conflito mundial mais recente, Churchill, Stálin, De Gaulle e Roosevelt acabaram emergindo como líderes durante a Segunda Guerra. Cada um a seu modo, e com suas falhas ou desvios, acabaram delineando o destino do planeta após a hecatombe deflagrada pela sanha nazista de Hitler.

Churchill, Roosevelt e Stálin no encontro de Ialta. Foto: Arquivo
Churchill, Roosevelt e Stálin no encontro de Ialta. Foto: Arquivo

Foram vários encontros, vários tratados (Ialta, Potsdam etc.), decisões contestáveis, como a divisão da Alemanha. Mas tanto nesse episódio quanto em outros, como a criação da frágil Liga das Nações (semente da ONU) logo após a Primeira Guerra, houve uma espécie de repactuação das lideranças e dos países. Um ‘freio de arrumação’, uma forma de retomar o caminho da normalidade. Foi assim com o Plano Marshall, a injeção trilionária de dólares norte-americanos em países europeus nos anos pós-Segunda Guerra. Houve uma inversão da lógica ortodoxa: em vez de apostar em cortes, a opção foi investir pesado em investimentos e na criação de empresas, empregos e, em consequência, na ampliação do mercado de trabalho. A consequência mais visível foi a evolução da Europa quase-totalmente agrícola e rural para um continente formado por países modernos e de centros urbanos em crescimento.

Não por acaso, foi um período glorioso na economia mundial.

O mundo vai precisar de uma repactuação quando a pandemia ceder. Tratados terão de ser revistos, barreiras comerciais terão de ser levantadas. Mas para encontrar esse novo caminho, o planeta precisará de líderes. Aí mora o nosso maior perigo. A seu modo, e com seus erros, Churchill, Stálin, Roosevelt, De Gaulle ganharam estatura enorme, esculpida pelos duros tempos da guerra. Não temos figuras comparáveis atualmente. Vivemos hoje dias de desconfiança absoluta em relação a qualquer pessoa com algum resquício de celebridade. De Dráuzio Varella a Pyong Lee, de Sergio Meneguelli a Donald Trump, todos estão sujeitos ao tribunal inclemente das redes sociais. Não há confiança em instituições, não há confiança em regimes políticos e não há confiança em líderes.

Nem é o caso de discutir, aqui, o terço da população ainda apoiadora de Jair Bolsonaro. Mas pensar se Trump vai aceitar se sentar à mesa para discutir saídas para o planeta com Merkel, Putin, Xi Jinping, e tantos outros chefes de estado, tendo como base condições igualitárias para todas as nações. Talvez as condições extremas vividas pela situação econômica e social do planeta mudem corações e mentes, tanto desses representantes quanto da população, e saiamos desse episódio repactuados para um futuro, talvez, promissor. Mas se corações e mentes não forem tocados suficientemente, a hecatombe social posterior à pandemia poderá ser dramaticamente superior à tragédia humanitária provocada pela doença.

Antonio Carlos tem 32 anos de jornalismo. E um tempo bem maior no acompanhamento dos fatos. Já viu e acompanhou muitos acontecimentos. Mas sempre é surpreendido por novos fatos, porque o inesperado é a maior qualidade das coberturas jornalísticas. E também da vida...

Os artigos publicados pelos colunistas são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam as ideias ou opiniões do ES360.


Comentários:

  • Uma análise absolutamente isenta e cirúrgica do momento atual por que passa o planeta. Estamos órfãos de lideranças, ao menos daquelas que, de fato, possam tomar as rédeas da situação e conduzir o mundo a citada repactuação. Parabéns pela estreia.

  • Muito bem colocado. As fracas lideranças políticas fruto de um mundo individualmente consumista poderá nos colocar numa situação de confronto ideológico que nos remeteram ao início da guerra fria. Temos que impedir que os medíocres assumam os lugares de mando e controle. O debacle da URSS, como acontecido, nos mostrou o perigo dos demagogos e oportunistas. Temos que nos precaver.

  • Um texto verdadeiro, onde retrata o egoísmo e a falta de humanidade.

  • Quem sabe a revolução de hoje já não esteja acontecendo: a vida depende da organização e engajamento. Parece obvio em tempo de deste pandemônio que não se pode nem pensar em vitória sem a adesão popular


Deixe um comentário:

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Mais Colunas