Advogada lança livro sobre a violência contra a mulher - ES360

Advogada lança livro sobre a violência contra a mulher

Na obra “Feminicídio: tipificação, poder e discurso”, Renata Bravo destaca a importância da informação para romper os casos de agressão

Renata Bravo
A advogada Renata Bravo fala sobre o lançamento do seu livro, que procura destacar a importância da informação para romper a violência contra a mulher. Foto: Divulgação/Rafael de Angeli

O Espírito Santo é destaque em uma triste estatística: a violência contra a mulher. Embora os dados mais recentes, publicados na semana passada pelo Anuário Brasileiro da Segurança Pública, apontem para a redução dos casos, o número de feminicídios no Estado no último ano ainda chama a atenção para o tema. No ano passado, foram 31 mortes de mulheres contra 42 em 2017.

E para apresentar alternativas para mudar esse cenário, a advogada Renata Bravo escreveu o livro “Feminicídio: tipificação, poder e discurso”, a partir de sua dissertação de mestrado. O livro será lançado nesta quarta-feira, dia 18, na Dugê Casa Boutique, na Praia do Canto, em Vitória. Em entrevista sobre sua obra, Renata fala sobre a importância da informação para romper a invisibilidade e naturalização da violência contra a mulher.

Mesmo com tantas conquistas das mulheres na sociedade, ainda vivemos sob o patriarcado. Como isso influencia o aumento da violência contra a mulher?
O patriarcado e as relações machistas estão na nossa cultura. Está nas nossas bases e precisa mudar. São essas relações que acabam culminando nas agressões e mortes de mulheres. A violência contra a mulher está interligada a discursos e propagandas machistas.

Como avalia os números nos últimos anos?
O aumento dos números tem sido relacionado por quem estuda o tema ao crescimento da divulgação. Antes, quando não tinha a Lei Maria da Penha, muitas vezes as mulheres nem sabiam que estavam sendo agredidas psicologicamente, o que chamamos de subnotificação. Antes de 2015, também não havia a tipificação do crime de feminicídio. E quanto mais se fala e se dá nome ao crime, você dá possibilidade para que mais pessoas entendam que o problema existe. E entender o que está passando pode dar mais coragem para uma denúncia e para enfrentar a situação.

Você analisou dados do Espírito Santo. Como avalia a realidade local?
O Espírito Santo sempre ficou entre os estados mais violentos contra as mulheres e o cenário mudou pouco. Avaliei processos judiciais e os três tipos de discursos presentes neles. O primeiro é a naturalização da violência contra a mulher, ao usar o discurso de que a violência ocorreu porque o homem estava sob efeito de álcool ou droga. O segundo é a morte das mulheres como exercício do poder patriarcal, quando elas tentam romper um relacionamento, por exemplo. Identificamos ainda o estado como reprodutor da violência patriarcal contra a mulher, ao não utilizar diretrizes estabelecidas em 2016 para investigar, processar e julgar processos com perspectiva de gênero, como usar o termo feminicídio desde o início do processo.

Ainda há dificuldade de algumas mulheres entenderem que estão sendo agredidas?
Com certeza. Acho que ainda falta chegar muita informação sobre o assunto a todas as classes. Para alguns grupos, que estudam o assunto, o acesso é mais fácil. Mas também há um grande número de violências ocorrendo com mulheres escolarizadas, que têm vergonha e dificuldade de procurar ajuda. Há muita dificuldade de perceber, principalmente a violência psicológica, pois a mulher acha que o companheiro vai mudar.

Como vê a acolhida da mulher na denúncia?
O que percebo é que as delegacias especializadas não estão em todos os bairros e municípios. No interior e cidades afastadas, a mulher chega a procurar uma delegacia para fazer denúncia, mas como no local muitas vezes só há homens para atendê-la, se sente envergonhada.

Quais são as alternativas para mudar esse quadro?
É pela informação. É preciso fazer os setores da sociedade, polícia, Ministério Público, faculdades e os próprios meios de comunicação discutirem o tema, até dentro das empresas. Quando a informação chegar, teremos mais chance de mudar a cultura.

Você destaca a importância de estabelecer o feminicídio como política pública. Como entidades podem contribuir?
Nas áreas de saúde, uma capacitação aos trabalhadores pode contribuir para identificar casos, pois esses profissionais podem receber mulheres vítimas de agressão, mas que contam outra história ao chegar ao atendimento. O mesmo papel pode ser exercido pela assistência social e também o conselho tutelar, que lida com as famílias, e tem sensibilidade para perceber. A partir deles, podem vir denúncias e comunicação à polícia.

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